25.1.16

O voo

Os primogênitos enxergam as rugas,
sentem o frescor do jasmim,
o timbre do coro, o sabor da fumaça.

Os que estão na segunda fileira percebem
a composição dos atores,
a harmonia do cenário,
o enredo.

Por último estão sentados
os que observam a plateia e a encenação.
Quem são?

Neste espetáculo, a morte fecha as portas.
O que há fora do salão?


Deslumbrado com os borrões de cores, a cacofonia das cordas e sopros,
Um tateia com a língua o osso que rompe sua carne.

Presa em águas que já correram, o vestido da bailarina
relembra o azul apagado de olhos que se foram.

O calafrio que percorre o dorso condensa na vidraça das janelas-gêmeas
Como o álgido toque da navalha que compartilha com seu amante.

Frustrada com o oblívio, enfraquecida com a extinção do seu culto,
pondera sobre o foi, o que há de ser e o para-além-disso (inexprimível, como sabemos).

Contorcendo-se e mal cabendo em si, a Inveja implode
alheia ao que é.


Este salão,
de buscas e arco-íris
cemitério de vaga-lumes e deuses,
de grãos de areias e estrelas,
osso e ferro,
angústias e marés,
desperta nas portas
e finda nas cortinas.

Apagam-se as luzes.

Iremos?

 Ficamos?