1.12.16

Insular


Sobrepujado e meio
perdido

Caminho
na tumba do oblívio
com frio, aflito, perseguido.

Voo diurno e rasteiro
em terras íntimas e vulgares
refrato certezas, desdenho verdades.

Brado lamúrias em silêncio
contorço na teia em minha audácia
Soberano, eu vislumbro
(retorço, trovo, repulso)
Fatigado, eu conformo
com seu abraço.

Exausto de faróis espúrios
de guias covardes
quimeras, serpentes e faunos.
Quero-te completa:
o vento frio taciturno
o profundo firmamento dissimulado
O mar negro mais eterno.

Escondo-me na ferida
respiro pesado o passado
imanente vileza mediada
cárcere do íntimo
Evito a esfinge,
reprimo o rebento.
Marca indelével,
estigma, fardo
Que não carrego sozinho
intangível porém permaneço
louco, exilado, condenado.

Mas!
Rasga o coração eremita
que não te nega, não se esconde
mas te navega
sem te buscar de fato.

24.3.16

Vanguarda

Onde vais, majestade? Tua casa, teu reino, teu povo. O carvão, o aço, as aljavas.
Clamam, lamentam e acordam. Venha ver, as flores, o moinho, as cabras.

Onde vais, homem? Tuas armas, vosso deus, teu nome. O fogo, as lágrimas, o sino.
Avançam, uivam e tingem. Veja, a tempestade, a flâmula, os olhos.

Onde vais, covarde? Teu legado, tua filha, teu cálice. O sangue, a mitra, os corvos.
Gargalham, obliteram e cantam. Olhe. A ruína. Os vermes. O fim.

Volte aqui, intocável. Nada lhe restou.Não há lembrança do seu rosto.

A morte te ignora. Os lobos cospem em teus ossos. As estrelas apagam, beijando teu rosto.

E tu permaneces. Condenado. Amaldiçoado.

Querias mais um dia, pois fiques com todos.

25.1.16

O voo

Os primogênitos enxergam as rugas,
sentem o frescor do jasmim,
o timbre do coro, o sabor da fumaça.

Os que estão na segunda fileira percebem
a composição dos atores,
a harmonia do cenário,
o enredo.

Por último estão sentados
os que observam a plateia e a encenação.
Quem são?

Neste espetáculo, a morte fecha as portas.
O que há fora do salão?


Deslumbrado com os borrões de cores, a cacofonia das cordas e sopros,
Um tateia com a língua o osso que rompe sua carne.

Presa em águas que já correram, o vestido da bailarina
relembra o azul apagado de olhos que se foram.

O calafrio que percorre o dorso condensa na vidraça das janelas-gêmeas
Como o álgido toque da navalha que compartilha com seu amante.

Frustrada com o oblívio, enfraquecida com a extinção do seu culto,
pondera sobre o foi, o que há de ser e o para-além-disso (inexprimível, como sabemos).

Contorcendo-se e mal cabendo em si, a Inveja implode
alheia ao que é.


Este salão,
de buscas e arco-íris
cemitério de vaga-lumes e deuses,
de grãos de areias e estrelas,
osso e ferro,
angústias e marés,
desperta nas portas
e finda nas cortinas.

Apagam-se as luzes.

Iremos?

 Ficamos?