29.3.14

Como um soldado, como um valente


Um cachimbo abandonado
 era nosso único elo.
Uma ponte tão frágil
 de pilares tão firmes.
A balada sopra,
E me toca
Um jazz antigo
cheio de saudade.

Papai morreu domingo, com um sorriso.
 Largo feito janela de ferro-frio.
Não havia lembranças na cadeira sem balanço
Somente uma carta vazia,
 Ressequida de amor e molhada de mar
 O olhar dançava como pêndulo
Ávido mas
Marejado.
Papai morreu dormindo, embaixo do baru
 No dia em que eu nasci.

Impetrei recordações
Namorei a solidão,
 Sussurros e súplicas que o vento arrastou.
 Uma leve tempestade
 No peito de quem não aprendeu o ofício de pescador.
 Todo órfão nasce meio poeta
 E todo poeta nasce meio órfão
às vezes de alegria, às vezes de tristeza.
 E o batimento
Do coração e dos ponteiros me desloca, me expurga.
 Onírico, vislumbro pelo caleidoscópio da vida (não vivida)
o conforto que desvanece com sol
e desabrocha com a lua.
Só o amor cega a lâmina da ausência.

A Deus, Papai. 

15.3.14

Cavaleiro do vento


Quixotesco, cavalgava

condenado em tribunal efêmero

(a vida é só um detalhe)

Maldiziam, zombavam

Mas ele sabia que era o (único) porta-estandarte de seus sonhos.

Apertava as esporas,

 flutuava guiado pelo vento

que beijava seu rosto

e acariciava o moinho.



Era um louco? Era um arauto?

Sua escudeira não sabia.