21.5.13

Um grito de águia que ninguém descreve


Só tenho um desejo
quando morrer.
Quero que alguém me conte se naquele dia
cantaram os sabiás da minha janela,
se a luz veio quente e incomodando os olhos,
qual jornal o velho da banca comprou?
Quais crianças correram na rua,
quem brincou, quem chorou?

Quero saber se o beijo da noite veio acompanhado de arrepios,
se haviam vidros de carros transpirando.
Certamente houve silêncio, já que os grilos se foram.
Qual livro estava na cabeceira?
Conte-me qual poeta teve vergonha do que escrevia.

Quero, quando chegar o sossego,
sem uivo, sem canto, sem nada
que me escreva em linhas tortas
(e como mais poderia ser?).

Na escuridão cheia de fortes perguntas
e vagas respostas, conte-me:
Se o mundo suportou a minha morte.

Conte-me, já que a morte não me diz nada.


sem fim



sofro do mal mais vil
conto as mentiras mais tóxicas
sou pai da intriga
sufoco com teias tristes
manipulo meus amigos
insulto, cuspo e conspurco

e mesmo rastejando,
covarde
tenho esperança.




(que algum dia sairei desse poço)


vem inverno e vai inverno
e só quero uma varanda,
um quintal e uma cadeira de balanço
para entrar nesse vai e vem


18.5.13

À noite II



escapa entre os dedos, voláteis
lágrimas de clepsidra
que desviaram seu curso
e se perdem.

Não faltou luz na estrada
era a escuridão em mim.
Tenho medo.
Não quero ir sozinho.