9.1.13

Cidade do pecado, parte 2


Luzes vulgares piscavam no centro da cidade e nem toda chuva que caia naquela noite lavaria sua imundice . Caminhava lentamente com Candy, que, ao meu lado, segurava um guarda-chuva novo. Ela estava quase bonita com o vestido preto mas suas lágrimas ou a chuva borravam sua maquiagem. Depois de tudo aquilo ela ainda estava comigo. Mulher imbecil. Irritei-me com as tentativas frustradas de acender o cigarro. Odeio chuva. Odeio velórios.

Minha mão ainda doía e começava a cheirar mal. Cedo ou tarde teria que superar minha antipatia por médicos e ir ao hospital. Mas não hoje: a irmã dela morreu. Overdose de algum opióide sintético, o que não fazia o menor sentido. Alguma coisa estava errada e minha suspeitas confirmaram quando chegamos a cerimônia. Haviam dois figurões da máfia sino-coreana sussurrando entre si logo na entrada. Entrei segurando a mão de Candy mas no fundo sabia que ia dar merda.

Quando me viram, mandaram quatro de seus cães me seguirem. Um deles se aproximou o suficiente para sibilar que haviam ouvido a história do Russo. Arrastei Candy para despedir-se da irmã na redoma de vidro.
Foi quando a confusão começou. Fui arrastado e arremessado para fora do templo. Começaram a me chutar e tentei me defender dos desgraçados mas eram muitos. Quando cansaram, levantei-me e limpei o suor e sangue de minha testa. Perguntei se eles já haviam terminado e quase me arrependi disso. Um soco pesado quebrou meu nariz, novamente. O sangue misturava-se com a chuva e tingia a calçada branca.
Eu estava cercado e ouvia os gritos histéricos de Candy. Para minha surpresa, um dos agressores foi ao chão com um cruzado fulminante. Era João/ana, a travesti mais barra-pesada do setor 31. Pelo o que eu entendi posteriormente, ela era prima de Candy. Mundo pequeno.

Joana me ajudou a levantar e perguntou se iríamos resolver aquilo ali mesmo. Censurei-a com minha expressão. Ela me disse que era uma péssima ideia. Ora, eu estou cheio de péssimas ideias.

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Cidade do pecado: http://erreponto.blogspot.com.br/2011/11/violencia-urbana.html

Poema mais triste


Escrevi o poema mais triste

Começa com você (chegando)
As nuvens e os ventos
murmurando, sussurrando
E o coração de vidro pulsando
mas temendo o despertar dos sonhos
e descobrir sua ausência.

O ruído torna-se confuso e desespero
pois sei como o poema mais triste começa
mas nunca sei onde termina.


Capitão Nemo


Naveguei por tantos sonhos que esqueci
como era pisar no chão

3.1.13

Nove

Naquele parque entre os idosos havia um que separava-se dos demais. Na barba branca escondia um sorriso gentil e enferrujado. Sempre o observava alimentar dois pássaros: um velho e gordo, o outro manco.
Um dia resolvi sentar-me ao seu lado.

Nada foi dito nem insinuado. Apenas contemplamos. Três dias depois sentei-me novamente ao seu lado.
Ele estava me esperando. Pedi-lhe um conselho e ele me disse que não era costume do seu povo dar conselhos mas poderia me ensinar três coisas, três vezes.

Aprendi e novamente voltei ao parque alguns anos depois. Ele não estava lá. Perguntei a todos os jogadores de damas (que era os mesmos) e ninguém se lembrava do velho. Era um mistério.

Pessoas, estações, cores passaram e se foram. Voltei a aquele lugar várias vezes, procurando-o. Até que um dia, uma moça (um pouco perdida) sentou-se ao meu lado. Então compreendi.