31.10.13

Uma noite



Sobre tudo a noite paira,
sobrenatural.

os suspiros
os segredos
as lamúrias
os desejos

é treva ou minguante
e seu ciclo,
translúcido, transcendente

resvala em tu'alma
grandiosa ou granular;
presente

e suas filhas,
fêmeas
bruxas
sereias

encantam com mistério
elusivas, provocantes

e seus filhos
felinos,
furtivos,
feiticeiros

sussurram segredos,
esquivos, sedutores

Esse odor, sereno
deixa um rastro molhado.
Transformando os que achavam
os raios de sol indispensáveis.

10.10.13

Mercúrio


Atrás dessa cortina de fumaça
há um coração em frangalhos
Atrás dessa sala de espelhos
impetro clemência

Arrepio quando ouço seu nome
E me afasto, o quanto posso,
de sua presença nefasta.

Agarro-me ao meu último suspiro
e soluço como criança.

E você vem,
com seus dedos gélidos
cheios de lembrança
cheios de passado

Essa marca indelével,
estigma,  fardo
que não carrego sozinho.

Intangível permaneço
condenado à loucura.
Aprisionado pelo tempo
em um labirinto de sombras.

Alice. Alice.




(Na confecção de  alguns tipos de chapéus era utilizado mercúrio e seus vapores intoxicavam os artesãos, causando problemas neurológicos, tornando os chapeleiros aparentemente perturbados e mentalmente confusos. Daí a expressão: Maluco como um chapeleiro.)


4.9.13

Bom inverno


Tem gente que cria filho,
alguns, gatos
já outros 'criam' ideias.
Aqueles crescem na vida....

E eu,
despreocupado,
só cresço a barba.

21.8.13

Ressaca



Quando finalmente me encontrei
vieram as ondas

de papel d'um livro esquecido
de café, em diálogos monossilábicos
de pipoca em cenas opressivas

que desgovernaram as poucas verdades
e me abriram um sorriso

afinal,
como blocos de montar,
a graça está em construir e desconstruir

15.8.13

Das brumas às flores


Ela carrega parte do mundo dentro do peito
Os olhos ávidos e simples
não calculam, enxergam.
É filha de Achelous,
bela e efêmera como vaga-lume,
às vezes radiante
às vezes ausente


Passageira como os ventos de agosto
Acalenta o inverno
anunciando as flores,
a poesia e amores.

27.6.13

Novelo



Não quero desvencilhar dos meus nós.
As linhas são retas e claras
mas eu gosto é das curvas
e das voltas.

21.5.13

Um grito de águia que ninguém descreve


Só tenho um desejo
quando morrer.
Quero que alguém me conte se naquele dia
cantaram os sabiás da minha janela,
se a luz veio quente e incomodando os olhos,
qual jornal o velho da banca comprou?
Quais crianças correram na rua,
quem brincou, quem chorou?

Quero saber se o beijo da noite veio acompanhado de arrepios,
se haviam vidros de carros transpirando.
Certamente houve silêncio, já que os grilos se foram.
Qual livro estava na cabeceira?
Conte-me qual poeta teve vergonha do que escrevia.

Quero, quando chegar o sossego,
sem uivo, sem canto, sem nada
que me escreva em linhas tortas
(e como mais poderia ser?).

Na escuridão cheia de fortes perguntas
e vagas respostas, conte-me:
Se o mundo suportou a minha morte.

Conte-me, já que a morte não me diz nada.


sem fim



sofro do mal mais vil
conto as mentiras mais tóxicas
sou pai da intriga
sufoco com teias tristes
manipulo meus amigos
insulto, cuspo e conspurco

e mesmo rastejando,
covarde
tenho esperança.




(que algum dia sairei desse poço)


vem inverno e vai inverno
e só quero uma varanda,
um quintal e uma cadeira de balanço
para entrar nesse vai e vem


18.5.13

À noite II



escapa entre os dedos, voláteis
lágrimas de clepsidra
que desviaram seu curso
e se perdem.

Não faltou luz na estrada
era a escuridão em mim.
Tenho medo.
Não quero ir sozinho.

26.4.13

18.4.13





Viajantes esféricos
prismáticos e efêmeros
cheios de vento, cheios de vida
soprado de dedos e de aros.

Dádivas e castigos do tempo
escoando como pétalas ou lágrimas
Se sou bolha, não separo
não reparo, só refrato
Sem caminho, sem destino
mas guiado.


Coroei os céus,
que tanto sabem
e pouco explicam
E se fui belo (assim espero)
Valeu-me tudo.

O tempo, as lágrimas, a viagem.

E se?


Quem jura amor eterno acaba com a surpresa e com a dúvida,
desgasta e envenena o amor.
E vê-se jurando novamente, invariavelmente.
O amor deve ser intenso e finito.
Deve-se querê-lo e vivê-lo,
não seguir uma promessa vaga, um sonho egoísta.

Tenha muito cuidado com qualquer coisa infinita.
Fascina, entorpece e enfraquece.

2.4.13

Caçada


As pupilas afunilam
ouço o tambor batendo em seu peito
arfo a névoa dos que gritam
Te persigo, te devoro
Sou o lobo da noite,
Sou o lobo do norte
Eu sou a vida
E eu sou morte

14.2.13

Não me toque


Não desejo seus dons, sempre evito seu olhar.
Esquivo do seu bálsamo, não quero purgar meu veneno.
Já me afastei uma, duas, mil vezes do amor.
Não renuncio à loucura.
Não preciso de uma cura.
Eu gosto é da dor.

Sem refil




De amores perdidos só me sobraram canecas e canetas vazias.


9.1.13

Cidade do pecado, parte 2


Luzes vulgares piscavam no centro da cidade e nem toda chuva que caia naquela noite lavaria sua imundice . Caminhava lentamente com Candy, que, ao meu lado, segurava um guarda-chuva novo. Ela estava quase bonita com o vestido preto mas suas lágrimas ou a chuva borravam sua maquiagem. Depois de tudo aquilo ela ainda estava comigo. Mulher imbecil. Irritei-me com as tentativas frustradas de acender o cigarro. Odeio chuva. Odeio velórios.

Minha mão ainda doía e começava a cheirar mal. Cedo ou tarde teria que superar minha antipatia por médicos e ir ao hospital. Mas não hoje: a irmã dela morreu. Overdose de algum opióide sintético, o que não fazia o menor sentido. Alguma coisa estava errada e minha suspeitas confirmaram quando chegamos a cerimônia. Haviam dois figurões da máfia sino-coreana sussurrando entre si logo na entrada. Entrei segurando a mão de Candy mas no fundo sabia que ia dar merda.

Quando me viram, mandaram quatro de seus cães me seguirem. Um deles se aproximou o suficiente para sibilar que haviam ouvido a história do Russo. Arrastei Candy para despedir-se da irmã na redoma de vidro.
Foi quando a confusão começou. Fui arrastado e arremessado para fora do templo. Começaram a me chutar e tentei me defender dos desgraçados mas eram muitos. Quando cansaram, levantei-me e limpei o suor e sangue de minha testa. Perguntei se eles já haviam terminado e quase me arrependi disso. Um soco pesado quebrou meu nariz, novamente. O sangue misturava-se com a chuva e tingia a calçada branca.
Eu estava cercado e ouvia os gritos histéricos de Candy. Para minha surpresa, um dos agressores foi ao chão com um cruzado fulminante. Era João/ana, a travesti mais barra-pesada do setor 31. Pelo o que eu entendi posteriormente, ela era prima de Candy. Mundo pequeno.

Joana me ajudou a levantar e perguntou se iríamos resolver aquilo ali mesmo. Censurei-a com minha expressão. Ela me disse que era uma péssima ideia. Ora, eu estou cheio de péssimas ideias.

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Cidade do pecado: http://erreponto.blogspot.com.br/2011/11/violencia-urbana.html

Poema mais triste


Escrevi o poema mais triste

Começa com você (chegando)
As nuvens e os ventos
murmurando, sussurrando
E o coração de vidro pulsando
mas temendo o despertar dos sonhos
e descobrir sua ausência.

O ruído torna-se confuso e desespero
pois sei como o poema mais triste começa
mas nunca sei onde termina.


Capitão Nemo


Naveguei por tantos sonhos que esqueci
como era pisar no chão

3.1.13

Nove

Naquele parque entre os idosos havia um que separava-se dos demais. Na barba branca escondia um sorriso gentil e enferrujado. Sempre o observava alimentar dois pássaros: um velho e gordo, o outro manco.
Um dia resolvi sentar-me ao seu lado.

Nada foi dito nem insinuado. Apenas contemplamos. Três dias depois sentei-me novamente ao seu lado.
Ele estava me esperando. Pedi-lhe um conselho e ele me disse que não era costume do seu povo dar conselhos mas poderia me ensinar três coisas, três vezes.

Aprendi e novamente voltei ao parque alguns anos depois. Ele não estava lá. Perguntei a todos os jogadores de damas (que era os mesmos) e ninguém se lembrava do velho. Era um mistério.

Pessoas, estações, cores passaram e se foram. Voltei a aquele lugar várias vezes, procurando-o. Até que um dia, uma moça (um pouco perdida) sentou-se ao meu lado. Então compreendi.