30.3.12

Martin

Estava muito quente naquele dia. O homem brincava no quintal com dois de seus filhos correndo atrás de um cabrito manso. As crianças mais velhas estavam entretidas com os brinquedos novos que o pai trouxera, pela terceira vez nessa semana. A alegria delas era contagiante e o pai divertia-se mais do que as crianças. Ele teve uma infância ruim e o pai dele gostava de lembrá-lo que ele nunca seria nada na vida. Mas agora esquecia momentaneamente todas angústias e dores do passado e escondia lágrimas de alegria.

A mãe observava-o com repreensão nos olhos. Até duas semanas atrás eles trabalhavam o dia inteiro, passavam fome e não conseguiam alimentar os sete filhos; hoje, a despensa estava tão cheia como nunca voltaria a estar. Cada um dos filhos tinha mais brinquedos que todos haviam tido juntos. Alguma coisa estava errada. A mãe gritava com o pai:

- Você entrou pra milícia? Tá contrabandeando agora? Havia desprezo na voz.

- Claro que não, meu amor.

- Então diga, onde conseguiu tanto dinheiro?

- É um milagre. Não era.

A mulher balançou a cabeça e entrou na tapera, com a filha mais nova no colo.

Ficou mais algumas horas brincando com as crianças e com os filhos dos vizinhos, que se encantaram com os brinquedos. Seus filhos compartilhavam os novos artefatos sorrindo. O pai só havia ensinado bondade a elas.

O pai entrou no casebre e viu a esposa e dois filhos assistindo a televisão nova, a terceira do bairro. Beijou as crianças e arrastou a mulher para o quarto e a amou tão intensamente que o estrado rompeu. Abandonou a esposa sonolenta para fazer o jantar e chamar os filhos para dentro da casa, já era quase noite. O filho mais velho cortava as cenouras quando o pai lhe disse:

- Filho... quando papai não estiver aqui, cuide de sua mãe e seus irmãos.

- O filho consentiu. Sempre consentia.

Quando todos foram dormir, ele vestiu uma roupa leve e caminhou pela varanda rústica. A mãe o seguiu e o olhava cheia de dúvidas e medo. O pai virou-se e disse:

- Tenho que ir. Eu te amo. Foi até ela e beijou-a como se fosse pela última vez.

- O quê é isso, homem? O quê há com você?

- Tenho que ir. Entrou na noite.


Caminhou por algumas horas pensando a reação que sua esposa teria quando achasse o dinheiro que deixou na cômoda. Era uma quantia pelo menos dez vezes maior do que eles conseguiam em um ano de trabalho nas minas. Ele sorriu e acendeu um cigarro sem filtro. Quando chegou no casarão, havia um caminhão parado com as luzes acesas. O 'china' olhava-o com impaciência e o negro falou-lhe:

- Você está atrasado. Ele pensou que havia desistido. Ia mandar os cães atrás de você.

O pai não se importava com o atraso. O homem oriental apontava para dentro do caminhão e gesticulava para ele entrar. O outro homem o empurrou com pouca cortesia. Olhou para dentro do caminhão. Estava tudo branco e havia sete outros adultos. Suspirou e subiu. Olhares cúmplices o acompanharam até sentar-se. Ouvia a voz de seu pai em sua cabeça:

- Verme. Nunca vai prestar pra nada. Nada!

Martin olhou para fora do veículo antes que fechassem a porta.

Foi a penúltima vez que viu o céu.

Na última, não sabia se estava louco ou morto.

28.3.12

Sentir

Não ouço o rouxinol
Não vejo o prisma do arco-íris
Não aprecio a uva doce
Não desejo o pão quente no forno
Não abraço sem sentir vazio

Sem ela, perde o sentido

Perco os sentidos.

25.3.12

Urânio-238

Tinta no papel
São gotas de sangue
salpicando
tingindo
transformando

tornando etéreo
eterno

Hoje

Que amanhã tudo ficará bem, eu sei.
Mas... e hoje?

Agulha negra

Nem lágrimas nos olhos
Súplica e redemoinhos
Urros e vórtices
Te livrará do escalpelamento

Toda essa mágoa rasgando
torcendo
você e eu.

O quê julgamos ínfimo

frag

men

ta

CH3CH2OH

Preciso de explicações para algumas coisas simples.
Para as complicadas, nem tanto.

9.3.12

Cerveja barata

O velho com cabelos marrons como casca de castanha olhava a moça que dividia a garrafa de cerveja barata com ele.

- Sabe querida - disse com a voz embriagada - nós dois bebemos por motivos diferentes.

A mulher observada os pequenos olhos penetrantes do velho.

- Eu bebo pra recordar. Você bebe pra esquecer. Mas no fundo é a mesma merda. Gostamos é desse zumbido agradável no silêncio da madrugada, que substitui nossas vozes que falam tantas besteiras, enchem tanto o saco, cobram tanto que compreendo vagamente como vocês idolatram tanto o álcool. A diferença é que meu povo sabia lidar com nossos problemas. O álcool sempre foi poderoso. E está tornando-se um deus perigoso. Mas você é muito nova para se lembrar desses tempos.

- Criança - ela disse. Eu já era velha quando os hindus sonharam com você. Eu vi deuses mais antigos que você, deuses que seus nomes já foram esquecidos, nascerem e morrerem. Eu vi os primeiros homens engatinhando nos sonhos e eu estava lá. Mas você está certo. Você bebe pra recordar. Eu pra esquecer.

6.3.12

Jack Daniel's

Meu uísque dourado
cor de âmbar
fragmentos do passado
queimando a garganta
relembrando o que está morto
incrustado, gravado.

Balsâmico
limpa as feridas
cicatriza, memoriza.

Liláses

Flui poesia como água corre nos dedos
Suave...

Acumula um bocado com as mãos em concha
para sorver e depois soltar.
Deixando parte dela escapar
e a outra metade fundir em você.

Essa é a poesia lilás.
Tão onírica quanto esmeralda.

Tão íntima, tão tímida.
Mesclando o rubro do coração com uma pitada de blues.
Poesia que cura meu coração roto
enxerga com olhos fechados (que são asas)
Violeta que inebria com perfume de vinho e sabor de mel.

Poesia lilás...
Transforma grilhões em elos
É incêndio feroz, púrpura
É mergulho sem volta, índigo.

Sempre-viva. Sempre-em-mente. Semente. Semi.

Essa cor... com um pouco de dor, seja como for
Régia e prismática
Afasta da sombra
Oscilando na matiz, um pouco crua
Como diria Neruda,
De tanto amor minha vida se tingiu de violeta.
E eu diria, com asas violáceas de borboleta.

Lua

As sombras só te protegem da luz.
Busque o fogo de Prometeu.

Luxferre

Andei entre corpos, cabisbaixo
Não por respeito
Não por medo

Eu que era o portador da luz...
Minha alcunha de rebelde é meu troféu por te amar demais.
A memória nossa tão amada cidade de prata resplandece nos alicerces dos universo.
Cidade de prata. Aqui, entre a carne e o pecado, a prata se liga com antimônio e enxofre. Sua ironia me enfurece.

Exilou sua prole, apoiou fratricídio e desapareceu.

Sangria

Há uma sangria que é saudável
e renova o que corre em você
em sua veia, seu veio
que não é visível para extração
mas sensível no toque.

4.3.12