29.2.12

Calo

Escrever me caleja a alma.

Não fico insensível,
me preparo para impactos.







Tenho calo
mas não me calo.

28.2.12

Vontade

A vida está passando e você aí contando com promessas divinas.
Suprime metade das suas vontades pensando que vai para o céu, valhalla ou ser reencarnado. Os deuses se foram, ninguém sabe pra onde.

Então combinemos, viva sua vida.
Pare de reprimir seu coração.





(E você sai ganhando, mesmo que eu esteja enganado.)

Álbum

Juntamos devagarzinho nossos momentos de cumplicidade
tecendo uma história leve e bonita.

Amálgama

O vapor condensou
o coração de ferro transmutou
amálgama de alma
que cresceu

O que cresceu?
Dentro de quem?

Alquimia no peito
Transfigura
Fervendo uma loucura
cozinhando esse elixir
que afeta tanto
o hierofante
quanto o pária.

27.2.12

Estampada

Tenho uma camiseta velha toda furada
carregada de lembranças compartilhadas
evidenciadas em velhas fotos
ofuscadas por dentes esmaltados.

Tecido manchado...
de tempo perdido?
E o traço da bic azulada...
de tempo passado?

E mesmo com barra puída
à infância me agarro
No fundo da gaveta, tesouro enterrado.


(E todos sabemos que nossa camiseta mais antiga é a mais confortável.
Usada como cata-sonhos. Noturnos.)

Vento absoluto

Soprava a brisa fresca
que me despertava
não sabia se era hálito ou vento
deitado no firmamento, meu templo.

A escuridão sobrepujava minhas idéias
e a solidão era robusta, constritora
esmagava... mas eu gostava
A ausência humana me tranquilizava.

Sentia novamente o hálito quente do vento frio.

Dúvidas surgiam.

O vento é só vento
desprovido de apego
que vem...
que vai...
como Pêndulo
dono apenas de si

22.2.12

Onírico

Sentia-me estrangeiro em mim
Meus passeios em seus sonhos
Explosão de cores tangentes
Sinestésico...

A beleza ficava nas fronteiras
em sua inexistência (pra ser mais exato)
Os limites mesclavam-se, aglutinavam

E permutávamos
Permitíamos

Éramos um,
éramos todos
Sonhos. Sonhadores.

Elixir

Aqueceu, preparou
Extraiu e misturou
O ofício da cura não aprende-se lendo mas
ouvindo
sentindo
sorvendo

As feridas precisam de tempo
Do tempo.

7.2.12

Poetisa

Amo a minha maneira
com beijos de café
dançando a javanaise
viajando, divagando
entre páginas e estrelas
centelhas que trovoam
dentro e fora
embriagando meu coração ébrio
canções que comovem
e provocam o riso, sorriso
incrusto e contorço.

Sua poesia.

Sol

Quando reflito...

nunca amanheço o mesmo.

Quem é você?

- Quem é você? Perguntou a gata

- Meu nome é Ana.

- Eu não perguntei como as pessoas te chamam. A gata rajada lambia a pata direita enquanto silibava.

- Hum... bom, eu sou médica, tenho 31 anos...

- Ana! Não foi isso que perguntei.

- Eu... eu não sei.

- Agora estamos chegando em algum lugar - ronronou a gata, satisfeita.

5.2.12

Apesar de mim

Noite passada, sentado na calçada, contei a um estranho
tudo sobre você.
Não sei se era um homem ou mulher
mas ofereci-lhe minha bebida enquanto contava
tudo sobre você.
Ele ou ela sorria sem dente, descrente.

Eu sei que você fez tudo
apesar de mim.

Disse-lhe que estava satisfeito por tê-la conhecido
Por ter cruzado seu caminho
orgulhoso por participar da sua carreira ilustre

Apesar de mim.

Contei-lhe o sonho que tive com você
como você me abraçava, a maneira que voltava para meus braços
seu sorriso, seu beijo, as horas de amor
tudo sobre você.

E em meu sonho você parecia tão próxima porém tão fria
Sonho cruel, perigoso
Porque eu sei que você fez tudo...




Apesar de mim.