17.12.12

robota



como um pensamento pode doer tanto?
que dom perverso é esse de transformar o abstrato?

não quero apalpar o intangível, não hoje

não quero catalisar nenhuma ideia
desejo desvincular dessa máquina,
pelo menos o painel direito

só hoje

15.10.12

Arauto



e lá vem ela
cheiro de relva e pimenta
sorriso de menina
os olhos são asas

a cabeleira de fogo, soprada
arauto das flores
e seu estandarte é a primavera.

Eco



Um pouco de vaidade sempre é bom.
Mas só um pouco.

11.7.12



a parte mais difícil de ser humano é ser






Demos-kratia



Afogo-me em perversidades
Perco-me em vilanias
Repugno a miséria
tanta escuridão, tanta maleza,
desprezo.
em páginas diárias
 a improbidade é atroz

Tanta amargura, cisão
Quem escolhe os párias?
Quem separa?
Quais as regras?
Quem guardará os guardiões?




Fúria



Estou ávido de tinta
de tons, das paletas, dos ímpares
de sons, das canetas, dos ares
de vocês;



preciso



pulveriza
meu peito
não espalha
meu espelho



da constrição
sobra o pó.




só o pó



(seco, cinza, rude)


4.7.12

Ébrio II


Escrevo melhor... bêbado.
Vivo melhor.
Bebo. Vejo.
Crio, aglutino, prevejo, adormeço, aconselho, amo, cheiro,
bebo.

8.6.12

Sem rosto



Flor sem jardim,
sem pétalas
cravejado de espinhos
chorando orvalho
tão sozinha...

Jardim carcomido
áspero, sinuoso
observa o botão desnudo
tão sozinho...
cemitério de vaga-lumes
observa sem rosto, sem olhos

Primo-irmão da solidão


Despe-me
Deixa-me a formosura
Leva meu amor
Arranca-me os dentes
e o que sobrou de minha dignidade.

31.5.12

Shi




"... onde nasce e mora todo o amor."



Fui dormir pensando-te.
Acordei e deixei seu verso
escondido no sonho,
No meio da tralha de coisas
vividas e imaginadas.
Tão inconfundíveis,
que te escondem entre elas.
Rindo,
enquanto desliza seu semblante
de volta pra escuridão.








(Ganhei um beijo, um café, um poema.)

20.4.12

Tinta



Há um certo romantismo em pingar tinta no papel.
As letras são criadas a partir de pinceladas. É uma dança similar a noite de luxúria.
Suga-se avidamente a pincel buscando idéias, como se fosse uma poção de astúcia.
O processo de criação é intenso e consome. Consome-se. Destrói. Recria.
É paradoxo temporal.
Os melhores escritos são produzidos num ímpeto literário (de minutos ou anos)
e suas idéias parecem acompanhar o escritor desde sua concepção intelectual (de minutos ou anos).
Concomitantemente .


É conflituoso.
Escreve-se para dentro e para fora.
Confunde. O leitor é escritor. O escritor é leitor.
As fronteiras são linhas tênues, papel branco, amarelo, até virtual.

Por mais exíguo ou abundante, simples ou complexo, doce ou fel
Instiga. Não?






Hrafnagalðr Óðins



Era costume do seu povo acender piras para seus guerreiros mortos em batalha.
Mesmo derrotados, eram orgulhosos. A própria terra gritava seus nomes.
Houve trégua dos trovões e tempestade para honrá-los.
Era um cemitério de vaga-lumes. Um jardim de flores de fogo.
Os corvos-gêmeos crocitavam que voltariam no último dia.
As hostes com o estandarte do deus Caolho, para a última batalha.





16.4.12

Humano



O homem que anseia pela escuridão é tolo. Vive na sombra.
Mas a sombra é apenas uma projeção... existe luz.
Na escuridão só existe solidão.
Sente medo. Sente-se só.
E deseja o calor.

Humano.

Sempre-azul



Um velho pirata resmungava um ditado dos nove flagelos.
Era conhecido em todos os mares, da costa do mar de jade ao cabo das tormentas.
Haviam várias versões mas era isso que dizia:

"E assim é a vida, como água salgada.
Boa para nadar, difícil de engolir."

Tarde passageira


Sépia era seu tom.

Tristeza, amiga.

Saudade, bom dia.

Amor, um cigarro.


(E ele também)



Ela nunca pensou no amor
Simplesmente amava.

Tolice



Aquele moço tolo mal sabia que sua maior certeza era a dúvida:

- Será que gosto dela?


Íntimo


Tão intimista que
às vezes
intimida.











(Revidando este aqui.)

Fornalha



A dama de ferro só não encontra a verdade no vento e na chuva.

Maleabilidade incomum nesse coração.

2.4.12

Cinzento



Vagueando sem rumo,
correndo com o vento
uivando pra lua
dormindo na chuva
sem qualquer arrependimento.

Mas logo a alcunha
vadio, vagabundo
às vezes é um tanto violento

Não sofre,
Não sorri,
Não padece,


É poeta de seus dias
É livre
Assovia a própria canção
Errante, gatuno
Desbrava

Entretanto não é sozinho
Mas tem ciúmes da liberdade. Sua e dela.




Alquimista


Perigosa imortalidade.
Tira importância do que faz a vida realmente valer a pena.
Os pequenos momentos confundem-se na cornucópia de memórias
O valor muda. A capacidade de atribuir valor muda.
Aquele café, aquele violão, aquele sorriso...
serão só um tom de acima das cinzas. Cinza.






(Não!)


Verão


O verão não é feito de passarinho e nuvem.

É de canto.
Solar, lunar;

E é de chuva.
Quente e fria.
Tépida.








Receita


Toda bebida noturna tem que ter um terço de álcool, uma fração de amor e o resto de tristeza.


30.3.12

Martin

Estava muito quente naquele dia. O homem brincava no quintal com dois de seus filhos correndo atrás de um cabrito manso. As crianças mais velhas estavam entretidas com os brinquedos novos que o pai trouxera, pela terceira vez nessa semana. A alegria delas era contagiante e o pai divertia-se mais do que as crianças. Ele teve uma infância ruim e o pai dele gostava de lembrá-lo que ele nunca seria nada na vida. Mas agora esquecia momentaneamente todas angústias e dores do passado e escondia lágrimas de alegria.

A mãe observava-o com repreensão nos olhos. Até duas semanas atrás eles trabalhavam o dia inteiro, passavam fome e não conseguiam alimentar os sete filhos; hoje, a despensa estava tão cheia como nunca voltaria a estar. Cada um dos filhos tinha mais brinquedos que todos haviam tido juntos. Alguma coisa estava errada. A mãe gritava com o pai:

- Você entrou pra milícia? Tá contrabandeando agora? Havia desprezo na voz.

- Claro que não, meu amor.

- Então diga, onde conseguiu tanto dinheiro?

- É um milagre. Não era.

A mulher balançou a cabeça e entrou na tapera, com a filha mais nova no colo.

Ficou mais algumas horas brincando com as crianças e com os filhos dos vizinhos, que se encantaram com os brinquedos. Seus filhos compartilhavam os novos artefatos sorrindo. O pai só havia ensinado bondade a elas.

O pai entrou no casebre e viu a esposa e dois filhos assistindo a televisão nova, a terceira do bairro. Beijou as crianças e arrastou a mulher para o quarto e a amou tão intensamente que o estrado rompeu. Abandonou a esposa sonolenta para fazer o jantar e chamar os filhos para dentro da casa, já era quase noite. O filho mais velho cortava as cenouras quando o pai lhe disse:

- Filho... quando papai não estiver aqui, cuide de sua mãe e seus irmãos.

- O filho consentiu. Sempre consentia.

Quando todos foram dormir, ele vestiu uma roupa leve e caminhou pela varanda rústica. A mãe o seguiu e o olhava cheia de dúvidas e medo. O pai virou-se e disse:

- Tenho que ir. Eu te amo. Foi até ela e beijou-a como se fosse pela última vez.

- O quê é isso, homem? O quê há com você?

- Tenho que ir. Entrou na noite.


Caminhou por algumas horas pensando a reação que sua esposa teria quando achasse o dinheiro que deixou na cômoda. Era uma quantia pelo menos dez vezes maior do que eles conseguiam em um ano de trabalho nas minas. Ele sorriu e acendeu um cigarro sem filtro. Quando chegou no casarão, havia um caminhão parado com as luzes acesas. O 'china' olhava-o com impaciência e o negro falou-lhe:

- Você está atrasado. Ele pensou que havia desistido. Ia mandar os cães atrás de você.

O pai não se importava com o atraso. O homem oriental apontava para dentro do caminhão e gesticulava para ele entrar. O outro homem o empurrou com pouca cortesia. Olhou para dentro do caminhão. Estava tudo branco e havia sete outros adultos. Suspirou e subiu. Olhares cúmplices o acompanharam até sentar-se. Ouvia a voz de seu pai em sua cabeça:

- Verme. Nunca vai prestar pra nada. Nada!

Martin olhou para fora do veículo antes que fechassem a porta.

Foi a penúltima vez que viu o céu.

Na última, não sabia se estava louco ou morto.

28.3.12

Sentir

Não ouço o rouxinol
Não vejo o prisma do arco-íris
Não aprecio a uva doce
Não desejo o pão quente no forno
Não abraço sem sentir vazio

Sem ela, perde o sentido

Perco os sentidos.

25.3.12

Urânio-238

Tinta no papel
São gotas de sangue
salpicando
tingindo
transformando

tornando etéreo
eterno

Hoje

Que amanhã tudo ficará bem, eu sei.
Mas... e hoje?

Agulha negra

Nem lágrimas nos olhos
Súplica e redemoinhos
Urros e vórtices
Te livrará do escalpelamento

Toda essa mágoa rasgando
torcendo
você e eu.

O quê julgamos ínfimo

frag

men

ta

CH3CH2OH

Preciso de explicações para algumas coisas simples.
Para as complicadas, nem tanto.

9.3.12

Cerveja barata

O velho com cabelos marrons como casca de castanha olhava a moça que dividia a garrafa de cerveja barata com ele.

- Sabe querida - disse com a voz embriagada - nós dois bebemos por motivos diferentes.

A mulher observada os pequenos olhos penetrantes do velho.

- Eu bebo pra recordar. Você bebe pra esquecer. Mas no fundo é a mesma merda. Gostamos é desse zumbido agradável no silêncio da madrugada, que substitui nossas vozes que falam tantas besteiras, enchem tanto o saco, cobram tanto que compreendo vagamente como vocês idolatram tanto o álcool. A diferença é que meu povo sabia lidar com nossos problemas. O álcool sempre foi poderoso. E está tornando-se um deus perigoso. Mas você é muito nova para se lembrar desses tempos.

- Criança - ela disse. Eu já era velha quando os hindus sonharam com você. Eu vi deuses mais antigos que você, deuses que seus nomes já foram esquecidos, nascerem e morrerem. Eu vi os primeiros homens engatinhando nos sonhos e eu estava lá. Mas você está certo. Você bebe pra recordar. Eu pra esquecer.

6.3.12

Jack Daniel's

Meu uísque dourado
cor de âmbar
fragmentos do passado
queimando a garganta
relembrando o que está morto
incrustado, gravado.

Balsâmico
limpa as feridas
cicatriza, memoriza.

Liláses

Flui poesia como água corre nos dedos
Suave...

Acumula um bocado com as mãos em concha
para sorver e depois soltar.
Deixando parte dela escapar
e a outra metade fundir em você.

Essa é a poesia lilás.
Tão onírica quanto esmeralda.

Tão íntima, tão tímida.
Mesclando o rubro do coração com uma pitada de blues.
Poesia que cura meu coração roto
enxerga com olhos fechados (que são asas)
Violeta que inebria com perfume de vinho e sabor de mel.

Poesia lilás...
Transforma grilhões em elos
É incêndio feroz, púrpura
É mergulho sem volta, índigo.

Sempre-viva. Sempre-em-mente. Semente. Semi.

Essa cor... com um pouco de dor, seja como for
Régia e prismática
Afasta da sombra
Oscilando na matiz, um pouco crua
Como diria Neruda,
De tanto amor minha vida se tingiu de violeta.
E eu diria, com asas violáceas de borboleta.

Lua

As sombras só te protegem da luz.
Busque o fogo de Prometeu.

Luxferre

Andei entre corpos, cabisbaixo
Não por respeito
Não por medo

Eu que era o portador da luz...
Minha alcunha de rebelde é meu troféu por te amar demais.
A memória nossa tão amada cidade de prata resplandece nos alicerces dos universo.
Cidade de prata. Aqui, entre a carne e o pecado, a prata se liga com antimônio e enxofre. Sua ironia me enfurece.

Exilou sua prole, apoiou fratricídio e desapareceu.

Sangria

Há uma sangria que é saudável
e renova o que corre em você
em sua veia, seu veio
que não é visível para extração
mas sensível no toque.

4.3.12

29.2.12

Calo

Escrever me caleja a alma.

Não fico insensível,
me preparo para impactos.







Tenho calo
mas não me calo.

28.2.12

Vontade

A vida está passando e você aí contando com promessas divinas.
Suprime metade das suas vontades pensando que vai para o céu, valhalla ou ser reencarnado. Os deuses se foram, ninguém sabe pra onde.

Então combinemos, viva sua vida.
Pare de reprimir seu coração.





(E você sai ganhando, mesmo que eu esteja enganado.)

Álbum

Juntamos devagarzinho nossos momentos de cumplicidade
tecendo uma história leve e bonita.

Amálgama

O vapor condensou
o coração de ferro transmutou
amálgama de alma
que cresceu

O que cresceu?
Dentro de quem?

Alquimia no peito
Transfigura
Fervendo uma loucura
cozinhando esse elixir
que afeta tanto
o hierofante
quanto o pária.

27.2.12

Estampada

Tenho uma camiseta velha toda furada
carregada de lembranças compartilhadas
evidenciadas em velhas fotos
ofuscadas por dentes esmaltados.

Tecido manchado...
de tempo perdido?
E o traço da bic azulada...
de tempo passado?

E mesmo com barra puída
à infância me agarro
No fundo da gaveta, tesouro enterrado.


(E todos sabemos que nossa camiseta mais antiga é a mais confortável.
Usada como cata-sonhos. Noturnos.)

Vento absoluto

Soprava a brisa fresca
que me despertava
não sabia se era hálito ou vento
deitado no firmamento, meu templo.

A escuridão sobrepujava minhas idéias
e a solidão era robusta, constritora
esmagava... mas eu gostava
A ausência humana me tranquilizava.

Sentia novamente o hálito quente do vento frio.

Dúvidas surgiam.

O vento é só vento
desprovido de apego
que vem...
que vai...
como Pêndulo
dono apenas de si

22.2.12

Onírico

Sentia-me estrangeiro em mim
Meus passeios em seus sonhos
Explosão de cores tangentes
Sinestésico...

A beleza ficava nas fronteiras
em sua inexistência (pra ser mais exato)
Os limites mesclavam-se, aglutinavam

E permutávamos
Permitíamos

Éramos um,
éramos todos
Sonhos. Sonhadores.

Elixir

Aqueceu, preparou
Extraiu e misturou
O ofício da cura não aprende-se lendo mas
ouvindo
sentindo
sorvendo

As feridas precisam de tempo
Do tempo.

7.2.12

Poetisa

Amo a minha maneira
com beijos de café
dançando a javanaise
viajando, divagando
entre páginas e estrelas
centelhas que trovoam
dentro e fora
embriagando meu coração ébrio
canções que comovem
e provocam o riso, sorriso
incrusto e contorço.

Sua poesia.

Sol

Quando reflito...

nunca amanheço o mesmo.

Quem é você?

- Quem é você? Perguntou a gata

- Meu nome é Ana.

- Eu não perguntei como as pessoas te chamam. A gata rajada lambia a pata direita enquanto silibava.

- Hum... bom, eu sou médica, tenho 31 anos...

- Ana! Não foi isso que perguntei.

- Eu... eu não sei.

- Agora estamos chegando em algum lugar - ronronou a gata, satisfeita.

5.2.12

Apesar de mim

Noite passada, sentado na calçada, contei a um estranho
tudo sobre você.
Não sei se era um homem ou mulher
mas ofereci-lhe minha bebida enquanto contava
tudo sobre você.
Ele ou ela sorria sem dente, descrente.

Eu sei que você fez tudo
apesar de mim.

Disse-lhe que estava satisfeito por tê-la conhecido
Por ter cruzado seu caminho
orgulhoso por participar da sua carreira ilustre

Apesar de mim.

Contei-lhe o sonho que tive com você
como você me abraçava, a maneira que voltava para meus braços
seu sorriso, seu beijo, as horas de amor
tudo sobre você.

E em meu sonho você parecia tão próxima porém tão fria
Sonho cruel, perigoso
Porque eu sei que você fez tudo...




Apesar de mim.

10.1.12

Ópio

Arrebanha-se,
tal qual flautista de Hamelin,
perante as convenções, instituições.
Poda, estrangula a liberdade.

E vive! uma liberdade (não tão livre)

É a parábola do semeador
Semente que perece na terra inóspita
(atribuído ao que foge ao padrão, à regra)
e floresce o embrião que cai em terra boa
(como se todas fossem iguais)

Mas não! Há vida onde não se pode viver.
Basta querer. E parar de balir.











(E a única intenção desse escrito não é abrir-lhe os olhos mas lembrar-lhe que os tem)

Vis

Sussuro, 'você é bonita!'
Mas ela não acredita.

ou nos beijos ou nas palavras adjetivas

(Vis lábios)

Hermético

O azul dos seus olhos recorda um céu limpo quando alegre.
E às vezes, fecha-se olhar cinzento (ou nublado) envolvendo-se em trevas misteriosas.
Hermético.

Prefere-lhe o tom claro. Mas não dispensa o enigma.

Murmúrio

Ouço o murmúrio das águas
que é tão uniforme e ao mesmo tempo possui tantas variações íntimas...

Maleável
Volátil
Elemento, elementar

Remete a emoções, talvez. Ao Ser. A ser.
E não me espanta a lembrança que é nossa essência. Primordial.
A água, não a emoção.
Talvez.

9.1.12

Preço

O preço por conseguir o que você quer é exatamente ter o que um dia se quis.

Janela

Sol demais, frio demais, chuva demais.
Aquiete-se.
Há deleite.

Zanga-se com o que vê pela janela mas o que te incomoda é o que é visto da janela que é você.

Souvenir

Ah! esse meu ímpeto de escrever-te
de decifrar-lhe o sorriso
que você traz no rosto
um souvenir...