17.12.11

Um dia desses

Acordei amuado.

Para alegrar meu dia só foi preciso um café, um livro e um beijo.

16.12.11

Chova

A chuva castigando a vidraça me faz pensar.
Parece-me tão doméstico o lupino do lado de cá do vidro, tão seco.
Enquanto deveria estar se molhando, explorando, caçando. Selvagem...

15.12.11

Caixa vazia

Abri a porta da sala e havia um pacote embrulhando em papel marrom.
Desembrulhei e encontrei uma caixa vazia, com um bilhete no centro.
A caligrafia feminina dizia:

"Envio-lhe tudo que você não me deu.
Preencha e mande de volta."

Pensei por vários dias.
E foi um grande erro retorná-la.
Vazia.
Vazio.









(Uma dose de morfina)

Ligeia

"Canso do mundo,
canso dos outros,
canso de mim,
até que minha vida descansa."

Mudo o mundo,
mudo os outros,
mudo a mim,
me cansa a mudança
me mudo e descanso.






(Canção da sereia)

Palavras descuidadas

As cicatrizes mais profundas são invisíveis.
Entretanto, as mais perceptíveis.

Acredite

Coragem é o embrião da liberdade.

14.12.11

Irlanda



Havia um quê de perfeição naquela manhã. Observava o sol nascer manso nos campos sempre-verdes da Irlanda. Tragava meu cigarro preferido e tomava o café na caneca, que repousava no beiral da janela de madeira. Ainda sentia o sabor do seu beijo e seu perfume em seu corpo. Sentia seus braços em minha cintura, sua voz manhosa chamando para a cama.

Olhava para o quarto vazio, lembrando daquela manhã perfeita. Fazia tanto tempo...

Palmares




Fugi da sentença do chicote
Molambo desalmado
Corri para o mocambo
Orgulho moído, destrato
E toda luta, toda fuga
Desespero, desamparo
Nessa selva fechada, desgraçada

Fugi, sobrevivi
Fui confinado no inferno
Para ser escravo em Palmares ?

Derrubaram Ganga Zumba
Ascendeu o rei Zumbi,
que foi o herói da resistência.
Mas não existem heróis na escravidão.

Anhangá



Um dia, o orgulhoso guerreiro abandonou o campo de batalha. Seus inimigos o perseguiam pela profunda selva. O jovem guerreiro corria desesperado como uma onça e largou o arco e a machadinha tosca. Os arbustos e o mato alto cortavam sua pele nua mas ele nunca parou. Fugia, corria, nadava. Entretanto foi descoberto e enquanto era arrastado pelos cabelos gritava:

- Fiz tudo que você sussurrou! Por que Tupã ? Por quê ?



O jogador



O homem entrou no cassino, impassível. Não era um cassino comum assim como aquele não era um jogador comum. Sentou-se à mesa e todos os outros jogadores sabiam quais eram suas intenções. A barba por fazer e o olhar cansado só enganava os menos talentosos. Haviam boatos que ele jogava pra resgatar sua família. Haviam boatos que ele apostara a vida de sua família. Que jogou contra o próprio diabo. Que ganhou a máscara de morfeu em um jogo de azar. Que perdera de propósito o martelo de Þórr para Loki. Jogou pela existência de sua terra natal, e venceu. Jogou contra a Cartomante, em seu próprio baralho, e ganhou a chave da terra dos mortos. Diziam que ele era o próprio destino, a sorte, a probabilidade. Todos os boatos eram verdadeiros.

Todos na mesa observavam ele vagarosamente colocar seus artefatos para aposta.
A orbe de Huutum, o anel do laterna-verde, o cajado de Moisés e o que sobrara da essência de Set. Todos sabiam que agora ele jogava contra a Peste, que roubara o segredo da Morte. Era a única aposta que valia tudo aquilo. Ele sabia que iria vencer e que não iria sobreviver muito tempo. Mas já tinha seu plano traçado.

Perdeu seus objetos, que poderiam comprar pelo menos dez mundos. Mas ganhou o que desejava e ainda levou a Bússola como souvenir.


5.12.11

Descobrir


Peço para que me acompanhe.
O caminho é escuro, eu sei, mas você pode segurar minha mão.

1.12.11

Uivo


O lobo está uivando!

(If you hear me howling, calling on my darling)