31.10.11

Travessia



Quero voar com asas de aço
Ascender aos patamares iluminados
E mostrar a beleza do denso
Para os olhos claros, despreparados.



Compasso



Arranho a pena no papel
o som agudo perfura,
rasga e nada registra
nada, inteligível

E a tinta que pensei ser ocre
foi teu sangue
E a tinta que não vi, invisível
tua saliva

Entorpecido ou alucinado,
não saberia
Lúcido ou dopado,
tempestade, calmaria

Me tirava o fôlego e os olhos
Declarava guerras, proclamava a paz
E resfriava na chuva o calor da fúria

Uma paixão,
destrutiva-construtiva
que só percebida quando se foi.


Mil faces


O que parecia bicho-da-seda acuado,
ataca com veneno aracnídeo
revelando que a seda macia no toque
é teia constritora, armadilha invisível
de intrigas e mentiras.



17.10.11

Aja!



- Haja paciência...

- Não! Aja!



Forma






Não gostava de ir pra escola. Me ensinavam matemática, inglês e biologia mas eu gostava era de aquarelas, violinos e filosofia. Inventavam-me distúrbios, complexos. Era um fora-da-lei. Me entupiam de pílulas que me deixavam engraçado e eu nem sabia o que tinha feito de errado. Me comparavam com as outras crianças, mediam meu cérebro na frente da classe. Pouco me importava mas todos riam. Todas as manhas, entregavam-me a mochila:

- Seja bonzinho, soldadinho.

























Pirotecnia



Gosto das palavras faísca e centelha
Gosto de tudo que muda, que transforma, que queima
E arde minha poesia, pirotecnia
Agitando as partículas,
tudo fica claro, ilumina
e ainda é brasa que não apaga
Aquece, acende e é pira
É começo e é fim.
Mas não para.


Sussurro



Trovo meu amor pra mulher mais bonita
Que às vezes tem nome, às vezes não.
E é anônima porque nomes já não são mais necessários.





Sal da terra



Esse amargor já foi agridoce
Detestável, cruel... porém sagaz
E sou o sal da terra
Purgo as malezas, absorvo as impurezas
Poupo-te e julga-me perverso.

Não há justiça para os justos.


Ternura velha


[...]
e devemos nos abraçar
até parecer que os braços vão arrebentar
nossa armadura de sentimento
tão intenso e amar
até transformar
nosso amor
lírico em lógica







Acorde


- Acorda!

Iago olhou chateado para seus amigos.

-Acorda! É muito complicado, cara. Acho que não vai dar certo.

Realmente era. Ponderou bastante. Seguindo os conselhos, voltou a estudar. A graduação veio, sem muitas complicações. Uma especialização em comércio exterior e um emprego bem remunerado. Apaixonou-se por uma mulher e na véspera do casamento, conversava com seu padrinho.

- Não desista!

Iago olhou aliviado para o padrinho.

- Não desista! Ela é a mulher certa, cara. Vai dar tudo certo.

E realmente deu. Eram um casal normal, viviam em uma bela casa e planejavam ter filhos. Que logo nasceram, sem muitas complicações. Um menino e uma menina. Tudo que uma pessoa podia querer, ser bem sucedido, esposa e crianças perfeitas. Envelheceu e confessou, no leito de morte.

- A vida não é só isso.

Iago olhou tristonho para a família.

- A vida não é só isso. Eu tive tudo e não tive nada. Eu queria ser artista, poeta e dançarino. Amo vocês, mas nunca quis casar-me. Queria viajar, viver e ter me preocupado com o hoje e não o amanhã. Minha herança é a sabedoria.

Fechou os olhos e tudo ficou escuro.














- Iago! Acorda, não desista! A vida não é só isso.

Olhou para os amigos, sonolento. Esteve olhando para o vazio por três segundos ou trinta minutos, não saberia dizer. Os conselhos coincidiram com sua vontade mais íntima.

- Galera, vocês estão certos. Vou correr atrás do meu sonho.





10.10.11

Equalização



Somos todos iguais e completamente diferentes.


Vibra


Devoro-te, pedaço a pedaço.
Consumo sua essência, saboreando cada nuance
Vagarosamente, seus fragmentos agregam-se aos meus
Me transformando, me corrompendo
Poder-se-ia afirmar que sua influência é imoral
Que me tornaria um eco das suas paixões
Que minha alma não vibraria em minha melodia
Mas esquece que optei por isso
Que enquanto te devoro, você me consome
Você escolheu isso
E vagarosamente, meus fragmentos agregam-se aos seus.

Meu
Eu Seu



8.10.11

Portal



Sentado na janela, escrevia e via a vida passar
Até me estenderem a mão, "Vem brincar!"
Pra janela, tristinha, disse: "Um dia vou voltar."


apud R.



Monografia significa monogamia.
Não devo flertar com a poesia.


4.10.11

Perda



Eu sei que essa amargura não cura
E eu tento com uma dose pura
Anestesiar a dor da perda prematura
Se me tiram tudo,
meu copo, meu cigarro, urro
Que é o que me sobra,
o brado doloroso de dom casmurro.





2.10.11

Ritual


Despeço da lua, contorcendo na cama
acordo com o sol na janela, tiro a areia dos olhos
Lavo-me com água quente nas manhãs frias
Meu banho gelado nas manhãs ensolaradas
E o aço da navalha raspa e rasga o pescoço
Mudando meu rosto, fico oco, mudo para outro
Troco a armação vítrea por clarividência inconsistente
Enquanto ela, desnuda, começa seu rito
Prossigo com o meu, trocando o hálito de beijo noturno
por fragrância de, sempre confundo, menta ou hortelã
Enquanto observo suas ofuscadas formas
dançando na minha cachoeira particular
Visto-me para esconder-me, as cicatrizes,
tatuagens, marcas da vida e a minha índole.
Engravatado, busco o perfume de marinheiro
Ela sai do banho e me dá um beijo, cheio de desejo
que a toalha embrulha mas não absorve
Rompendo o ciclo, a rotina totêmica
Quebrando meu rito, e me alegro
Que nesse disfarce de homem certo
Ela enxerga o coração descoberto.



Temos tempo



Hold my hand 'n' let it flow
Take your time, make it slow
Don't yield if you blush
There is any need to rush


Artrópode



Amor articulado é artrópode esbaforido
Rastejando, gesticulando, dançando
O mais doce veneno de escorpião, sem ferrão
Tecendo a malha mais bonita
que conforta e estrangula
vitória resignada, derrota indignada
Voando com asas coloridas
vivas ou desbotadas.




1.10.11

Palmares



Fugi da sentença do chicote
Molambo desalmado
Corri para o mocambo
Orgulho moído, destrato
E toda luta, toda fuga
Desespero, desamparo
Nessa selva fechada, desgraçada

Fugi, sobrevivi
Fui confinado no inferno
Para ser escravo em Palmares ?

Derrubaram Ganga Zumba
Ascendeu o rei Zumbi,
que foi o herói da resistência.
Mas não existem heróis na escravidão.