30.9.11

Perfume



Todos os dias quero cheirar-te
Perfume que me cheira a arte












Ainda não



Beto foi sobrepujado por seus inimigos. Estava gravemente ferido, agonizando no chão salpicado de sangue. Contorcia e delirava de dor. Anjos negros, valquírias malditas patrulhavam seu esconderijo. Sua vida passava vertiginosamente diante de seus olhos. Viu a imagem de seu pai, em seus últimos dias, que lutava bravamente contra um câncer nos ossos. O pequeno Beto segurava a mão do pai, que agora estava sem barba, careca no jardim de sua primeira casa. Olhava aquele homem admirado, enquanto montavam arapucas. Um pássaro, capturado pelo artefato, lutava desesperadamente para sair. O pai perguntou-lhe:

- Sabe porquê o passarinho está desesperado ?

- Medo de morrer, pai ?

- Não, filho. Vontade de viver.

Libertaram o pássaro, que escapou velozmente.

- Pai. Eu vou morrer ?

- Ainda não, Roberto.


Ergueu-se, Inabalável.


Mar sem Ana



Milhares de gotas derramadas mesclam-se ao oceano.
Dizem que são fragmentos desesperados por aceitação.
Mas na verdade o oceano que clama pelas pequeninas.


29.9.11

Lista



Comecei a escrever uma lista das coisas que não gosto.
Enquanto decidia, lembrei das coisas boas e deixei a lista de lado.


Zéfiro



Ícaro era uma fazendeiro. E para a sorte dele, não era um comum, e sim fazendeiro de nuvens. Criava nuvens, de todos os tipos de formas. E conhecia a essência de cada uma, o único jeito de não perdê-las, já que elas não obedeciam os moldes e limitações. Sem falar na volatilidade do humor, que algumas vezes era leve e alegre como algodão e em outras eram negro e pesado. Mas Ícaro conhecia e gostava de todas. As pequenas, grandes, horizontais, verticais, fibrosas, globulares, sólidas, frágeis.

E como todo fazendeiro, tinha seus ajudantes, que guardavam e guiavam suas nuvens. Eram três, Pé-de-vento, Vendaval e Rajada. A principal preocupação do menino eram os papagaios, estandarte de terror e papel. Rasgavam os céus, partiam as nuvens antes que essas pudessem atingir a fase adulta e chover. E vis, como eram, perseguiam, com cauda cerrilhada, as menores. O ferrão, impregnava vidro pulverizado, era fatal.

O ofício de criação de nuvens era uma responsabilidade muito grande e ele era o único no seu mundo. Adorava aquilo e não suportava as insinuações dos outros seres (que inventaram os papagaios) que ele deveria abandonar sua função. Eles só queriam que Ícaro deixasse de ser o que era, se tornasse igual aos demais.

Mas tudo isso era um sonho. O menino Ícaro acordou pela manhã, e tirando a areia dos olhos esqueceu que era fazendeiro de nuvens. Bocejando, abriu a janela. E já tinha uma pipa voando, cortando os céus. Torceu para um vendaval arrebatá-la.













(Obrigado pelo título)

Urbano



Pichou no seu muro:

"Mais amor, por favor!"

Dessa vez, não correu.






26.9.11

Helena





Helena observava inquieta toda escuridão em sua volta. Havia um homem sulista, sentado à sua frente, vestido elegantemente. Era negro, careca, estático, obelisco. Impassível, dirigiu-se à mulher:

- Sente-se. Havia uma pequena rocha levemente iluminada para onde ela dirigiu-se.

- Quem é você ? O que está acontecendo ? Eu morri ?

- Morreu, criança.

- Quem é você ? Repetiu a pergunta olhando nos olhos infinitamente escuros do homem.

O homem mudou o rosto, que ela reconheceu. E ele disse:

- Sou o Fim.

- Você é a morte ? Você ? Ela gaguejava e torcia as mãos.

- Sim.

A resposta atingiu Helena como um soco. A voz era idêntica, apesar de tom austero. Com um pouco de vertigem, ela perguntou:

- Por quê ?

O homem voltou a sua forma original e olhou para o início do universo, centenas, milhares de parsecs dali.

- Há tempo.

Depois de uma longa pausa, continuou:

- Nós acompanhamos todos vocês, Início ao Fim, durante o breve período que vocês existem. Logicamente, você só descobrem quem eu sou quando morrem. E lembrariam do Início, se não fossem tão novos quando ele soprou a Vida. Foi o preço que sua raça pagou, trocou o instinto pela racionalidade. Ele também acompanha vocês durante toda existência.

- Eu o conheço ? Perguntou, desnorteada.

- Sim. Você já o viu, uma vez. E várias vezes.

- Posso vê-lo agora ?

- Não.

Mais uma pausa longa. Helena, com lágrimas nos olhos perguntou:

- E agora ? Mas ele não respondeu.

Posteriormente falou-lhe:

- Helena, sua descendente é o único ser que me verá duas vezes. Por quê ?

- Minha descendente ? Não entendo, só tenho um filho.

- Teve.

A mulher começou a chorar. Enxugou os olhos com as mãos e amedrontada, respondeu:

- Não sei. Não entendi nada, nem sei porque estou aqui.

Silêncio absoluto.

- Só isso ? A voz dela falhou e mesmo assim ouviu sua resposta:

- Sim.

E desapareceu.





Primavera

A(h!) primavera começa em setembro
Cores, sabores e odores até dezembro

E quando nela me descubro
Na janela vejo a chuva de outubro

E com pássaros e abelhas em novembro
Sei que das flores sou poeta-membro

E com um sorriso tudo vai acontecendo
Reescrevendo, cantarolando até dezembro.


22.9.11

Felic(idade)



Felicidade rima com liberdade
e a gente só descobre depois de certa idade
quando ela bate, a saudade.


Simples



Canto porque sei cantar,
Não porque vocês podem me ouvir
Não porque assim posso me ouvir
Mas porque eu sei cantar.

Retrato



Se não tenho tato
Se não mantenho contato
Não julgue (o coração-retrato)
Pelos primeiros atos

Deveríamos ser gratos
Que às vezes sou sensato
Entenda meu recato

E pra ser exato
Apesar do meu afável trato
Meu amor não é imediato
Mas saiba que já estou apto.








19.9.11

Livre


A menina gritou para os seres feéricos:

- Minha mãe disse que vocês não existem. Não acredito em vocês. Não posso.

- Não importa, disse a fada-lilás abraçada ao sátiro. Nós acreditamos em você, Isabel.

Barganha


O único preço a se pagar pelo amor, é amar.


Efeito colateral


Você descobre que está amando quando seu corpo começa a te trair.
Olhos, mãos, lábios, necessariamente nessa ordem.
Com lágrimas, suor e palavras. Não necessariamente.







(Adaptado por ela, das palavras doces.)

Morfeu



Se não pudéssemos sonhar, seriamos estáticos. Vinculados à tecnologia, ao racional. Sem aspirações, sem devaneios ou loucuras. Se não tivéssemos pesadelos, não aprenderíamos a conhecer nossos medos, enfrentá-los. Não aprenderíamos a acordar e ver que o sol já nasceu.


Sonhe!



Dúbio



Minhas palavras significam exatamente o que quero e não quero dizer.

Sempre e nunca
acredite e duvide.


15.9.11

Trickster



That's my plot,
My poetry log.

Feelings comes and fades,
Fading is the sun that shone.
He's the jack-of-all-trades.
Actually, master of none.



Forte



O menino carregava seu boneco de plástico para o lago. Boneco não, figura de ação. Bonecas eram coisas de meninas. E ele detestava as meninas. Era doloroso despedir do seu amigo. Matias era um índio estático, feito de plástico duro cor de parede. Sim, de parede. Ele não sabia qual era o nome daquela cor mas era a mesma da parede da sacada. Perfeito para camuflar nos cantos.

Matias era o preferido, apesar de não ser o único. Fazia parte de uma tribo multicolorida. Era o líder da tribo que segundo a caixa, era Apache. O único com cocar. E era inimigo mortal do Cowboy Billy (segundo seu primo, era um cowboy famoso, sabe-se lá aonde).

Caminhava com passos pesados. Sua mãe mandara ele desfazer dos brinquedos, já era rapaz. Lembrou-se das danças da (na) chuva que Matias lhe ensinou. Pegou alguns gravetos e começou a construir uma jangada tosca. Amarrou com a linha do carretel (sem cerol, o pai não permitia).
O guerreiro navegou obstinado, teria um fim honrado. Agradeceu ao menino pelos inúmeros dias de felicidade compartilhada. A criança olhava seu amigo afastar com o vento úmido quando gotas começaram a cair no lago. Gotas pesadas, misturavam-se. E não era chuva.

Essa foi a lição mais importante que ele aprendeu sozinho. Aprendeu a dizer adeus.


(Continua...)





























Mas ele cresceu. Passou a amar as meninas. Seus amigos agora eram dinâmicos, feitos pele e coração. Descobriu o nome daquela cor, que era creme. A sacada enorme, agora mal o comporta deitado. E esqueceu de Matias, assim como esqueceu que sabia dizer adeus. Mas aprendeu de novo:


- Adeus, velho lobo.


(Continua, um dia...)

Que mania!



Que mania que eu tenho de escrever a(`) noite, sonhando com o dia.






14.9.11

Babilônia


Não há nada mais irritante que histórias contadas pela metade.
Por exemplo, hoje pela manhã eu pensei em escrever. Detesto quando













(Pra descontrair)


13.9.11

Menos palavras



Não consigo falar quando estou amando
Pois prefiro amar do que ficar me explicando.



Chácara


Sou da época do filtro de barro,
Do joão-de-barro,
Menino sujo de barro.


Escritor



Não pedi pra você ser temerário. Exigi que não fosse covarde.



Truque




- Não saberia dizer se as mãos são mais rápidas que os olhos - disse ela ao mágico. Pensei que estivesse hipnotizando.



Peregrinação




Sou beduíno procurando flores de cacto
Nômade no deserto
Esquivando das miragens
machucando à vontade

A areia apaga minhas pegadas
E nunca me perco (consulto as estrelas)

Só me perco no aroma das flores de cacto
Que mesmo no deserto são belas
Bravas, consumindo meu pacto












Commedia dell’arte



Tantas vezes disseco o meu ser que esqueço de ser.

Não finja que é Pierrô, Arlequim!



Lobisomen



Era lobo desconfiado. Seguia seus instintos.
Mas também era homem apaixonado. Seguia seu coração.
Lupino, esquecia as emoções. Afastava as tristezas e os amores.
Humano, transbordava sentimento. Procurava os sorrisos e as lágrimas.
E essa é a maldição do licantropo.




6.9.11

Cubo de rubik




Equilibrando como trapezistas

entre o abismo da paciência
e do desejo

descobre-se que a distância entre os dois

émenordoqueseimagina

e maior quando se percorre .


Paciência, paciência..





Aos amigos




Proclamo aqui minha amizade,
minha declaração de dependência.

"Digam à alcateia que fico!"







Desconfio



Desconfio de sorrisos sem dentes.
De cartas sem segredos.
De crianças comportadas.
De tristezas sem alegrias.
De primavera sem flores.
De melancolia sem gaitas.
De paixão sem beijos.
De amor sem promessas.
De poetas comedidos.


Borras



Retenho o excesso
borra de café
que moeu e remoeu

café que borra
transborda
queima
[Sopra! Sopra!]

café doce
café amargo
café salgado

se coador de pano,
é manchado.
o coador de papel,
descartável.








5.9.11

Resistência



Vocês tomaram minha terra,
desonraram meu povo,
estraçalharam meu orgulho
e agora ameaçam minha vida ?

Pois venham.
Agora, sou o mais perigoso dos homens.


Bula

Solidão:

Esse sentimento é contra-indicado em caso de amigos.















(Obrigado e por nada.)

Cárcere



Perguntaram-me se eu estava armado.

Disse-lhe:

- Trago minha pena, minhas lembranças e todos sentimentos que um homem é capaz de carregar.

Aterrorizado, anunciou minha prisão.

Bobagem. Era minha liberdade.



4.9.11

Forjaferro

Sou rijo
Sou lâmina temperada
Sou pé calejado
Sou sangue
suor e lágrima

Nem tormenta
Sóis, Luas
Gelo, Brasa
Vilania ou radiância
Me abalará







Novelo

Menino, não enrola!
Desenrola!
Puxe esse fio! ache a ponta
Não é Creta, Teseu
Não bifurque
Não disperse
Convirja

1.9.11

Agosto



Assim a trovadora entoou
mês quente e poeirento
de gosto e desgosto
poeira de ampulheta
que escorre
pinga tempo
dependendo do vento
que tanto leva, tanto trás
tanto faz...



(Da poetisa que inspira, que é flor na poesia, em época de flores brancas e solares)



Marinheiro

Naveguei nos sonhos mais tolos que construí na areia
você trouxe conchas arco-íris para enfeitá-los
ergui muros mais altos, cavei os fossos mais profundos
com algas você coloria os jardins e desenhava janelas
invoquei exércitos de sonhadores que corriam atrás das ondas
e você me ensinou a amar
veio o mar

água salgada que permeava minhas barreiras
preenchia e derretia
marinheiro sem pátria, refém em meu castelo de areia
que agora era multicolor
nas formas de sonho

Mas era só um sonho que você me convidou
Perguntou-me que se um dia, você partir
eu voltaria a sonhar
Mas era só um sonho.

O mar não é para os sonhadores de areia.
Parti, devastando seus sonhos
que você teimou em erguer na areia.
Afoquei-me em nossas lágrimas
que já não podia compartilhar.
Rainha de copas refém em nosso castelo de corações.




Cidade de lata

Colhi amoras e amores
Bebi o orvalho e acordei na cidade tão escura
Haviam tantos ponteiros que constringiam meu tempo
Tantas vozes roubando meu pensamento
e só queria deitar e ouvi-la.

Os pássaros eram apitos, os cavalos eram de ferro.
E seguiam sem nenhum capricho
Ofuscando as estrelas, amando marionetes
Como se pudessem amar!

Esconder-me-ia mas não
Brilho ou pária!
Bebi, um atalho. E sonhei com a infância tão bonita.

Nuvens brancas, não cinzas.
Céu azul. Não cinza.
Cheiro de grama e não de cinzas.
Amoras e amores.