29.7.11

Sonhos guaranis

O coração batia acelerado. Os olhos negros no leito do rio.
Só ouvia Aracy. Saltou.

Correu como uma flecha, voou feito araruna.
Eram os guaranis.

As pernas ardiam, a noite deitava.
Ele não podia ceder, faltava pouco.

Atravessou a selva, e sentou-se numa rocha na areia.
O ar quente mutilava-o quando viu
um barco flutuando no para sempre azul.

Atônito, via aquilo aproximar-se.
Teve uma visão,
que abá de pele branca
matava todos,
destruía tudo.
Devia contar ao pajé ?

Sonhando acordado deixou-se capturar pelos inimigos.
O guerreiro jaguara arrastava-o pelos cabelos negros.
Nunca teve a chance de alertar seu povo.

Navega


O barco navega

vela
proa
casco

de papel.

Eu corria atrás
e a chuva levava
a infância.

O barquinho
des man cha va
e caiu no bueiro.

Oh! Tristeza


22.7.11

Filactéria

"Era o leão mais forte de sua tribo. Seu coração era de marfim, era poderoso e implacável.
Foi desafiado por todos os guerreiros, todos os xamãs. Invencível.

Então viu os olhos oblíquos da feiticeira. Dançaram na lua cheia, amaram-se como animais.
O vento beijou a juba dourada enquanto ela arrancava o coração de suas entranhas. Ele urrava de dor e prazer.

As sombras vieram depor o rei. Mas o que julgaram fraqueza era fortitude. Nunca descobriram onde a feiticeira guardou o coração. E o leão nunca perguntou. Foi feliz até o seu fim."

- E você acha que iremos encontrá-lo, papai ?

- Já o encontramos, disse o espantalho.

Pai e filha observaram no fim do universo (perto do sonho esmeralda) a feiticeira contemplar o coração do leão. Batia como trovão.



18.7.11

Bourbon

A iluminação do porão era pobre. Alguns feixes de luz atravessavam o teto de madeira, adornados por partículas de pó. A lamparina em cima da escrivaninha já consumia os últimos traços de combustível e sua chama fria lambia o vidro de proteção. Havia tantos livros e papéis espalhados que era impossível discernir qual página pertencia a qual volume. O velho grisalho murmurava palavras desconexas interrompidas por gargalhadas ensandecidas. Tentou de tudo. Começou com prostitutas e mendigos. Cortava a carne, retalhava e costurava. Falhou com a ciência e com a magia negra. Passou para o ferro. Estudava, construía, programava. Falhou com a eletricidade e a inteligência artificial. Tentou ossos, mas eram definitivamente mais difíceis de conseguir do que corpos. E mais trabalhoso, mesmo com todo o ouro que tinha. Nem mesmo apresentava resultados promissores. Questionava como Victor havia sido bem sucedido, há tantos séculos atrás.
Fracasso, fracasso, fracasso. O quê faltava? Escassez de vontade, determinação, tecnologia não era. Seria a chama de algum deus?
Subiu as escadas para espairecer e saiu da casa. Levava uma garrafa de uísque de milho. Andava a esmo, aquecendo a alma com a bebida. Era noite de verão, mas estava muito frio quando tudo aconteceu.
Perdido, procurou a estrada de volta por horas quando avistou uma placa de madeira. Apontava a direção de duas vilas, mostrando o caminho que tinha que tomar para voltar. Viu um rastro de fogo nos céus, que julgou ser uma estrela cadente. E gritou para o vazio:
- Eu quero um filho!
Quando o acesso de loucura cedeu, viu-se frente a um vulto de mulher. O vestido azul-turquesa desenhava curvas no seu corpo. E os cabelos dourados em cascata dançavam a luz da lua:
- Ouvi seu desejo. O que você faria por ele?
- Tudo.
- O quê você me daria?
- Qualquer coisa.
- Até sua alma?
- Sim - disse ajeitando os óculos redondos. Era um preço baixo a se pagar.
Ela pegou sua mão e olhava-o com seus olhos de fada. Despia-se e o beijava com sofreguidão.
O velho acordou nu em sua cama e com chamas nos olhos. Desceu ao estúdio e passou a esculpir em um tronco de pinheiro. Como não pensara nisso antes? Seu pai era carpinteiro, estava tudo tão claro agora. Em horas o boneco de madeira jazia ao lado dos demais. Um de carne, um de lata e um de ossos. Beijou a fronte do golem de madeira e sussurrou:
- Acorde meu filho.
O boneco piscou os dois olhos, e olhava-o confuso.
Repetiu com um sorriso no rosto, como se ainda fosse capaz de sentir felicidade:

            - Acorde meu filho. Seu nome é Pinóquio.

16.7.11

Agouro

Hugo girava obsessivamente seu anel de noivado enquanto olhava pela janela a chuva castigar o vidro. Era o terceiro dia de chuva torrencial e o alpendre de madeira acumulava poças enormes. Matheus bebericava seu copo de chocolate quente sentado no sofá com as pernas esticadas. A impaciência de Hugo o incomodava. Era possível sentir o cheiro de eucalipto e terra molhada em qualquer um dos três cômodos da casa. Chamou o amigo:

- Cara, relaxa. Vai pra debaixo das cobertas - mal terminou a frase e bateram na porta da casa, assustando ambos rapazes. A voz da mulher do caseiro veio em seguida:

- Seu Hugo! Seu Hugo! O vento molhado fustigou o rosto do rapaz enquanto fechava a porta de madeira. Maria carregava um guarda-chuva preto, vestia uma capa de chuva amarela. Calçava galochas combinando com a capa. Os rapazes saudaram a senhora, que constrangida pedia desculpas pelo incômodo.

- Desculpa, seu Hugo. Estava passando aqui perto e de repente a chuva ficou mais grossa, tive que vir aqui. Matheus a convidou para sentar-se e tirar a capa de chuva, que foi obedecido prontamente. Ela tinha o rosto marcado pelo tempo que ficava em contraste com a jovialidade de seus olhos. A mulher falava em tom baixo e não ousava puxar assunto. Ela observava os dois jovens. Seu patrão era ruivo, alto e tinha inúmeras tatuagens espalhadas pelos braços. E tinha o cabelo raspado nas laterais. Apesar do visual horroroso, ela gostava dele. Era muito educado e direito. Já o amigo dele, achava mais bonito. Tinha a pele muito branca e cabelos muito escuros. Extremamente sério.

Maria cruzava os braços se protegendo do frio enquanto os rapazes conversavam sobre assuntos da cidade quando fez-se uma batida no vidro. Os três olharam e viram um corvo procurando abrigo debaixo do telhado do alpendre, exatamente no beiral da janela. Hugo irritou-se:

- Sai, peste! Era o que me faltava! Exclamava e cutucava o vidro. O corvo encarava-o, sem demonstrar qualquer sinal de intimidação. O animal só desvia o olhar para a mão do rapaz quando esse aproximava para bater no vidro.

- Deixe o pássaro em paz cara. Ele não tá fazendo nada.

- Um bicho agourento desses ? Nem pensar!

- Não sabia que você era supersticioso. Matheus levantou uma sobrancelha.

- Não sou. Não muito. Afastou-se da janela e sentou-se entre Maria e Matheus.

Durante cinco minutos os três ficaram observando o corvo imóvel do lado de fora de casa. Era desconfortável.

- Sabe - começou Maria - eles não são tão ruins. Antigamente acreditava-se que era um animal sagrado.

- Quem acreditava ? Perguntou o cético Matheus.

- Não sei, os nossos ancestrais talvez. Quem me contou foi minha mãe e aposto que a mãe dela contou a ela. Alguma tribo, algum clã. Sei lá.

- Seus pais são daqui ?

- Sim, e os pais deles também. Estou falando demais, seu Hugo ? Desculpem, é que quase não tem ninguém aqui pra conversar, fora meu marido.

- Prossiga, Maria. Conte essa história.

- Bom... o povo antigo reverenciava os corvos porque esses ajudavam na travessia pro outro lado. Mas somente daqueles que morreram sem serem enterrados. E me refiro a qualquer ritual de passagem, não só enterrar. Queimar o corpo como os "bárbaros", mumificar... tudo isso conta. Mas os que morriam em guerra, perdidos ou qualquer que fosse a circunstância que impedisse o "enterro" era trabalho dos corvos ajudarem eles a atravessarem e não ficarem presos do lado de cá. Assim evitavam espíritos ruins, fantasmas assombrando os lugares. É claro que existiam alguns corvos gananciosos. Esses exigiam o pagamento por seus serviços, geralmente levando uma ninharia, um talismã ou uma joia de pequeno valor do falecido. Por isso o fascínio que algum deles tem por coisas brilhantes. Especialmente ouro. Isso é tudo que lembro.

Os três ficaram vários minutos pensando naquela história.

- Fascinante - disse Mateus finalmente.

Um calafrio percorria a espinha de Hugo. O corvo não desviava os olhos dele. Apontou pra janela.

- É impressão minha ou ele não parou de olhar pra mim ? Disse Hugo com a voz fraca.

O olho negro do corvo fuzilava a aliança na mão do rapaz.




13.7.11

O homem e o lobo



Os olhos são orbes vorazes, o hálito é selvagem
É Fenris, Anúbis, Marte

Seu orgulho, santuário

É furor, predador, fugitivo
É ardor, protetor, totémico

Uivam para Hécate, os homem são lobos,
Pensam que é serenata do licantropo, Tolos!

O homem é alcatéia,
mas o lobo é solitário.



9.7.11

Prisma


É impossível definir-se porque não somos um, somos vários.
O de ontem, o de hoje. São várias máscaras, várias armaduras.
É possível enxergar várias nuances do ser, mas só ele enxerga-se completamente.
Por isso você pode conhecer tudo que se tem pra conhecer de uma pessoa em dez minutos.
Mas em dez anos ela ainda é capaz de te surpreender.




Passageiro



Sentia-se num carrossel.

Apertava o bilhete na mão decidindo onde iria parar, quando descer.
O dúbio relógio avançava.
Haviam lembranças nas lágrimas.

Vagarosamente, passou.






Semelhança





Todos somos poetas. Poucos são de palavras.
E o coração deveria saber disso.