20.6.11

Castigo

Safira: Parte IV



Atravessar o deserto do mar negro era uma tarefa sobre-humana. A areia, sal e pedras desgastavam qualquer pé descalço. Não havia sido uma boa ideia tomar aquele caminho mas era por onde a bússola apontava. Encontraram muito maquinário pesado, usado para realimentar, dessalinizar e purificar suas águas, mas estavam quatro ou cinco décadas abandonados. Era inacreditável que pudesse haver um mar ali no passado, já que aquela área remotamente lembrava uma depressão.

Farrak olhava Safira com respeito. Essa mulher lutava bravamente e não o abandonou, mesmo quando ele decidiu sacrificar-se pelos demais. Até aos filhos de Bast se afeiçoou. Decidiu em seu íntimo que os protegeriam de qualquer mal.

Olavo estava contente com a recuperação do amigo. Além de sua aparência habitual, que era chamativa, o colar em seu pescoço reluzia como a estrela da manhã. Em todas auroras sussurava "Tlahuizcalpantecuhtli", sem saber, de fato, o que significava aquilo.

O gato cinza apurava seus sentidos, em vigília. Enxergava detalhadamente um escorpião encurralar uma centopeia a centenas de metros de onde estava. Monitorava qualquer ruído incomum num raio de dois quilômetros.

O outro, dormia.

Safira estava introspectiva. Olhava bastante no seu mapa e via mudanças drásticas quando comparava-o com os que encontrou no computador. Estavam em direção a Bulgária, mas era impossível confirmar sua localização.

O gato cinza começou a miar e olhar para o céu. Era possível enxergar uma ave sobrevoando a região. Todos ficariam alarmados como estava o gato, se pudessem ver suas dimensões colossais. Instintivamente, Safira olhou a bússola, mas a ave não ia para o norte.

Durante uma noite particularmente escura, sete dias após verem a ave pela primeira vez (e mesmo que os outros não enxergassem, os gatos notaram que a águia sobrevoava aquele céu todos os dias) observaram no horizonte jatos de chamas partindo de um ponto aleatório do ar e castigando o solo. Os gatos, horrorizados, viam imensos lagartos alados expelir colunas de fogo em dois homens, que lutavam bravamente para sobreviver. Ninguém dormiu aquela noite.

Decidiram pela manhã verificar o que aconteceu (mesmo sob protesto dos filhos de Bast). Três quartos de hora levaram até chegarem ao destino. Todos ficaram surpresos com os corpos de cinco dragões dilacerados. Haviam dois homens, com aparências totalmente opostas. Um vestia uma túnica leve, sem adornos. Uma cabeça de leão servia de ombreira e calçava sandálias trançadas. Era extremamente musculoso, alto e imponente. Exibia ferimentos e queimaduras por todo seu corpo, e a barba cerrada em seu rosto estava chamuscada. O outro estava totalmente coberto por uma armadura de liga leve, distribuída em escamas uniformes. Um visor tampava seu olho direito e uma atadura o esquerdo. Só tinha um braço, que portava uma pistola leve de plasma. Era possível notar uma camada de ar quente contornando seu corpo. Não pareciam agressivos enquanto se aproximavam, mas não baixaram a guarda.

- Quem são vocês ? Gritou o homem mutilado, em inglês.

Os djinn tateavam simultaneamente os cabos de suas cimitarras. Safira deu um passo a frente para responder enquanto seu computador desnecessariamente traduzia a frase para seu idioma.

- Sou Safira. Estou acompanhada de Olavo e Farrak e dois filhos de Bast.

O homem musculoso fez uma observação ao outro, que rapidamente olhou para Safira. Incrédulo, perguntou:

- Você é ... uma mulher ? Apertou os olhos e o visor brilhou. - Por Rá!!!! Exclamou ao se aproximar. Desligou sua arma e o escudo de força. Confusa, Safira deu um passo para trás. Não por medo, mas por espanto. Farrak tomou a frente e apertou firme o frio cabo da espada. Olavo perguntou a jovem:

- Safira, o que eles estão dizendo ?

- Calma, calma - disse o homem. Murmurou alguma coisa em turco e os gênios se acalmaram. -Safira, certo ? Meu nome é Ramessés. Aquele é Hércules.

Atônita, ela olhava para os dois. Ramessés da Resistência Egípcia ? Hércules das Doze Tarefas ? Apesar de tudo que já passara, aquele encontro era inacreditável. Um pouco desconfiada (afinal, poderia ser um disfarce) conversou principalmente com Ramessés, trocando informações sobre os acontecimentos mais recentes. Quando ele perguntou o que ela e os demais estavam fazendo ali, com um pouco de receio, respondeu:

- Estou procurando o fogo. Quando disse a última palavra, Hércules olhou para ela, como se compreendesse sua língua.

- Pois sabemos onde ele está. Ou pelo menos, estamos indo ao encontro de quem sabe.

- Verdade ? Me digam! Por favor!

- Sim, verdade. Ele - apontou para Hércules - está indo exatamente libertar Prometeu, que roubou o fogo.

18.6.11

Lembranças


Ela sonhava coma relva perene
e dançava a luz da lua.
Onde passava,
os pássaros noturnos piavam enamorados
e as flores sonolentas suspiravam.

Era graciosa,
flutuava
pulava
girava.

Semeava estrelas.
Com os olhos cristalinos semicerrados
murmurava uma velha canção

Dois saltos, um giro.



Agora tocava violino no farol
que havia visto em uma foto do seu avô.
Era a música que ele mais gostava.
Sentiu o cheiro de erva-de-cachimbo
e por alguns instantes
sentiu
o
nascer do sol.

Dois movimentos, uma nota.



Acordou abraçada, deitada na grama curta. Ele fumava o toco de um cigarro observando o nascer da noite. Ela ajeitou-se para levantar e colocou as mãos nos bolsos no moletom cinza (que tinha um grande M bordado). Foi até o velho banco e sentou. Inquieta, levantou-se rapidamente.

- O quê foi com você ?

- Nada - ela respondeu sorrindo.

Era outono.






14.6.11

Aurora

Quatro cavaleiros encontravam-se não muito longe dali. Se os humanos estivessem monitorando aquela região enxergariam (incrédulos) quatro senhores muito bem vestidos, sentados a mesa tomando chá.

Um deles era tão magro quanto um humano pode ser antes de falecer. Parecia frágil, e seu corpo era adornado por uma túnica multicolorida porém desbotada. Estava em sofrimento, a dor de gerações. Era tão negro quanto a noite mais escura mas seus olhos brilhavam como estrelas, resolutos e magoados.

A sua direita, sorrindo maniacamente um homem trajando um uniforme militar (como inúmeras medalhas de condecoração), altivo e confiante. Uma pequena ogiva flutuava em sua mão direita, que era quase acariciada por seus dedos ansiosos. Constantemente ele alisava o bigode farto que decorava o rosto alvo e desgastado.

Em seguida, um homem trajando um smoking adornado por um flor escura na lapela. Seu belo rosto era impassível, severo. Raramente olhava para os demais, absorto em seus pensamentos. Não possuia um fio de cabelo, um pêlo no rosto e seus olhos eram mais negros que sua pele, mais antigos que o próprio universo.

O último usava uma máscara de carvanal e a coroa do primeiro rei. Tinha vestimentas de um nobre, encobrindo sua pele doentia, macilenta. Sua voz era aveludada, amaciava os ouvidos mais austeros. Era impossível discernir suas expressões sob a máscara, mas agora ele estava sorrindo e todos sabiam disso.


- Começou - disse o mais velho sem mover um músculo. O mais novo levantou-se, fez uma reverência em que a ponta do nariz de sua máscara quase tocou a mesa, antes de sumir. O militar ficou mais agitado. Perguntou:

- É a minha vez ? A resposta veio em alguns momentos, permitindo. Com uma gargalhada ele despareceu com o clarão de uma explosão.

O mais velho não esboçou nenhuma reação. O outro irmão levantou-se perguntando:

- O que está acontecendo ? Te verei novamente ?

- Só mais uma vez, irmão.

- Deus tenha piedade de nós. Sinto que o fim está próximo. Você estará aqui ?

- Sim irmão, serei o último a partir. Eu sou o fim. Agora vá.

Depois de vários momentos (que poderiam ser segundos ou milênios) partiu. Ceifaria tudo até encontrá-la.


9.6.11

Provação

Safira: Parte III


Constantinopla (antiga Istambul) era a cidade dos sonhos. Suas ruínas eram o alvo preferido de saqueadores e após três décadas de espólios suas riquezas ainda eram capazes de alimentar um pequeno país.

Era a primeira vez que Safira visitava o Segundo Império Turco. Olavo afiava sua falcione com uma pedra polida, Farrak ainda estava inconsciente, perdera muito sangue. Olhou os dois gatos e sentiu saudade da Branquinha. A noite que foram atacados atormentava seus pensamentos. Já não conseguia dormir e os pesadelos vinham enquanto estava acordada. Tinha tanta fuligem no rosto que era impossível discernir a idade da jovem. A comunicação com os djinn ficou impossível depois que Luz desapareceu. Conseguia inferir significado para frases simples, mas nada além disso.

Admirou a companhia e coragem dos belos gênios e gatos, que continuaram com ela mesmo depois do ataque. Carregava um punhado de penas de Quetzacohuat que fora ferido gravemente naquela noite, e ela nunca mais o veria até o fim dos seus dias.

Olavo sorria mas Safira sabia que ele estava desesperado, remoendo sua crença, sua própria existência. O gato cinza, o mais corajoso, miava baixinho. Chorava a perda da irmã.

Safira caminhou alguns passos em direção ao centro de Constantinopla. A arquitetura de seus prédios era magnífica, mesmo em sua decadência. Havia tanto escombro nas ruas que era quase impossível a locomoção. E tantos carros e pequenas naves nas vias terrestres, nenhum em condição de pilotagem.

Andaram por várias horas, sem de fato avançarem para o norte. Safira tropeçou em alguma coisa e percebeu que o corpo de uma garota. Tanta gente morta. Olavo revirou a mochila da moça encontrando alguns tabletes proteícos intragáveis, uma tela transparente cheia de botões e uma garrafa de água suja. Virou-se para a negra e perguntou:

- Istiyorsun ?

Safira ignorou a garrafa, pegou a tela cristalina e ligou o computador. Tocou a tela com o polegar e as configurações mudaram de turco para sua língua mater. Por vários minutos tentou ligar para sua família, seus amigos sem sucesso. Suspirava enquanto lia notícias de guerras e mais guerras de três, quatro anos atrás. Esporadicamente mostrava as imagens a Olavo, lamentando que o djinni não sabia ler. Notou então um ícone na tela e acessou um carro que ligou a poucos metros dali, escondido atrás de uma pilastra.

- Não acredito, não acredito - gritava com um sorriso estampado no rosto.

Entrou no pequeno carro e convidou os demais para fazerem o mesmo. Olavo carregou Farrak, e os gatos olharam desconfiados. O gato cinza pulou para dentro e o outro o seguiu. Havia uma unidade de primeiro-socorros no bagageiro frontal e Safira o alcançou com a mão direita enquanto a outra acessava a tela de inicialização do carro. Farrak gemeu quando a unidade foi injetada em seu organismo e perdeu sua expressão de sofrimento instantaneamente. A jovem tirou a bússola da sua capanga enquanto mudava o piloto automático do carro para o manual. O GPS não funcionava corretamente, girava como um peão provocando uma pequena vertigem, e Safira preferiu desligá-lo.

Assim que abandonaram a via terrestre, foram capazes de perceber a destruição da cidade. Era como se forças descomunais tivessem digladiado no centro da cidade. Fizeram uma parada em um mercado, no quarto andar de um prédio. Não havia muita coisa para um loja tão grande, mas o suficiente para o pequeno grupo. Descansaram por algumas horas e partiram antes do crepúsculo. Nesse tempo configurou a tela para traduzir suas conversas com Olavo, que incrédulo olhava aquele artefato peculiar.

- Olavo, esse veículo não vai nos levar muito longe. Precisamos sair dessa cidade logo. Como está Farrak ?

- Melhor. O bálsamo que você aplicou aliviou sua dor. Ele é um guerreiro forte, deve acordar em poucas horas. Safira, posso te perguntar uma coisa ? O que é Aquilo que está seguindo você ?

- Não sei ... mas sinto sua presença desde que visitei a Cartomante.

- Cartomante ?! Isso é ruim, muito ruim. São velhas espertas e nunca fazem nada por bondade. São vis. Você não deveria ter consultado.

- Não tive alternativa, preciso encontrar o fogo. É o meu destino.

- Entendo. Pelo menos você tem uma missão. Eu e meu amigo ainda não sabemos o que devemos fazer. Allah não falou conosco.

Safira apiedou-se do confuso djinni e o abraçou. Passou a manufaturar um colar com as penas do deus serpente e presenteou o amigo. Enquanto isso o carro flutuava sob a velha Istambul, em direção ao deserto do antigo mar negro.


6.6.11

Esperança

Safira: Parte II



Nove dias sem dormir, Safira cambaleava pelos prados. Os três gatos olhavam para ela com esperança e miavam quando ela pensava em desistir. Já não era possível diferenciar o dia da noite. Comeu algumas castanhas sentada, observando os gatos brincarem. Dormiu enquanto afagava um deles.

Acordou com um grito, suando. Os três gatos olhavam pra ela, em uma espécie de transe, como se fossem seus guardiões. Safira levantou-se e disse:

-Vamos embora.

Dois dias mais tarde, olhava no mapa procurando uma encruzilhada, quando notou quatro criaturas perto de uma conífera. Assustou-se. Era a primeira vez desde que encontrava alguém depois de passar por Ur. Eram dois djinn, uma serpente alada gigantesca e um globo de luz flutuando, que parecia um fogo-fátuo. Pareciam conversar entre si. Aproximou-se cautelosamente e com a voz trêmula disse:

- Olá ?!

A serperte eriçou suas penas imponentes com fúria nas presas. Era colossal e parecia crescer em tamanho e perigo soltando um silvo ensurdecedor. Um djinni, em turco, gritou algo à serpente que, ao que pareceu a moça, tentava acalmá-la. O outro djinni perguntou alguma coisa que Safira não compreendeu. O globo de luz piscava alucinadamente enquanto levitava. Ela ouviu em sua mente:

- Bem-vinda, humana. Ecoou uma voz cristalina da esfera luminosa.

- Por Allah! O que você faz aqui criança ? Repetiu o gênio. Ainda há homens aqui ? Virou-se perguntando ao outro. Ainda por cima, vem com três filhos de Bast! Apontava para os gatos.


Safira que há três anos só havia visto os djinn em livros de mitologia percebeu que eles pouco se pareciam com as ilustrações. E pareciam ainda menos com o que visitou sua aldeia. Ambos portavam espadas curvas em sua cintura, roupas exagaramente coloridas e várias jóias adornavam seus corpos que era mais altos que qualquer pessoa que a jovem havia visto. O que fez a pergunta, não tinha barba. Ela vagarosamente respondeu:

- Não sei, estou perdida. Quer dizer, estou indo pro norte. Quem são vocês ?

- Ela é filha do leão, da gazela, do elefante. Reconheço sua linhagem, nunca pensei que viveria para revê-la - silibou a serpente enquanto olhava a mulher negra.

- Meu nome é Olavo, na língua dos homens. Ele é Farrak - disse o djinni sem barba, que tinha olhos tão azuis quanto os de Safira. Aquele é o deus serpente do oeste, das Américas, Quetzacohuat. Bom, e essa nos chamamos de Luz. Ela veio das estrelas. De alguma maneira ela permite que nossa língua seja compreendida entre nós. O globo girava em volta da menina. Continuou:

- Não sei se ainda é época de boas maneiras, mas prazer em conhecê-los. E como podemos chamá-la, menina ?

- Safira. Bom, minha vó dizia que gatos não tem nomes mas gosto de chamá-los de...

- E sua vó tem razão, interrompeu o taciturno Farrak.

Após alguns minutos de silêncio a serpente assoviou:

- Mais demônios do fogo se aproximam. E tem mais alguma coisa, que está seguindo ela - direcionou a cabeça para a jovem.

Os djinn sacaram suas lâminas torneadas e praguejavam. A adrenalina fez a moça vencer o cansaço. A serpente alçou vôo e com um sopro agudo disse:

- Corram.

Safira olhou para a bússola que desesperadamente apontava para o norte e pediu para todos a seguirem. Os sete fugiram o mais rápido que seus corpos permitiam. Exausta, olhou para trás e viu a uma grande distância Quetzacohuat em meio a labarelas escarlates. Perguntou:

- Ele vai ficar bem ?

Olavo respondeu:

- Vai. Apesar de ser a nossa guerra, não ousamos contestá-lo. É o mais poderoso de nós. Eram efreeti lá, sabe ? É a terceira vez que ele nos salva. Farrak não aceita muito isso - disse com voz baixa - mas queremos sobreviver. O djinni sentou-se na grama e falou: Você parece cansada, descanse um pouco. Farrak e um filho de Bast ficarão de guarda.

Safira sentou-se, e ajeitou sua saia. Olhou para Luz e perguntou:

- De onde você é ? Aliás, o quê você é ?

- De muito longe humana. De um lugar onde sua estrela é apenas uma migalha do universo, onde ela é uma... na sua compreensão, uma criança. Nós somos o povo do meu planeta como você é do seu.

- Nós ?

- Nós. Somos vários, somos todos. Viemos observar - vibrou a voz angelical.

- Como assim ?

- Alguma coisa aconteceu aqui. Nessa época. Viemos observar.

- Eu me referia ao "somos todos" - enfatizou gesticulando com dois dedos em cada mão.

Olavo interveio:

- Ao que me parece, isso - apontou para a luz - é todo o povo dela. Todos ouvem a mesma coisa, vêem a mesma coisa, existem no mesmo lugar. Olha só, eu também não acredito que ela venha de lá - apontou para o céu - mas tá tudo ferrado mesmo. Allah nunca mostrou nada disso. Só os anjos estavam acima de nós e ela não é um deles. Droga, não consigo dormir.

A gata branca rolava na grama. Safira estava aflita.

- Tem quase duas semanas que não durmo direito, estou muito cansada. O que ele quis dizer com "Ela está sendo seguida."? Nesses dias eu sentia alguma coisa em meu encalço, me observando. Estou com medo.

- Não sei, criança. São tempos estranhos. Mas agora você está segura conosco -disse o gênio sem barba.


Quando a serpente alada voltou, pousou em volta de todos. Estendeu suas asas e os aqueceu naquela noite. A proteção do deus permitiu Safira ter sua primeira noite de sono. Entretanto, sem sonhos. Pelo décimo segundo dia.



5.6.11

Gênese

Quando Sol era jovem, era um sonhador. Banhava seu rebanho com sua semente e vontade. Quando seu preferido foi abençoado com a Vida, não se conteve de emoção. Começou a ter sonhos mais ousados, queria seres sonhadores. Durante milhões de anos banhou-o com sabedoria, e vagarosamente foi despertando seus filhos. Mas impacientou-se e voltou seus pensamentos (e sonhos) para outras questões e dormiu. Felizmente, ainda radiava. Durante séculos, seus filhos clamavam e choravam pelo pai, que não os ouvia. Os filhos, tal qual o pai, impacientaram-se. Para suprir toda necessidade de respostas, inventaram. E inventaram.

4.6.11

Safira

Safira: Parte I


Safira era o último humano em seu planeta e não sabia disso. Sua peregrinação em busca do fogo a levou a pequena província, Ur. Perto de um poço, encontrou três gatos desconfiados. Havia um tabuleiro de um jogo à muito esquecido e dois troncos cerrados serviam de assento. Em um deles, uma Cartomante embaralhava um velho tarô. Um dos gatos saltou na relva verdejante atrás de um louva-a-deus enquanto a moça sentava-se em frente as velhas.

-Você tem direito à três perguntas - disse a primeira velha.

-Você tem direito à três cartas- disse a terceira, que só tinha um olho. A outra permaneceu em silêncio.

Safira olhou apavorada para ela e tirou uma pequena bússola da vestimenta surrada.

- Onde está o fogo ?

- No lugar mais difícil do Tudo, no lugar mais fácil do Nada.

- Como eu o alcanço ?

- Só uma pergunta, querida.

A jovem tremeu, olhou para a segunda e perguntou:

- Onde estão os filhos do mundo ? Fazem três meses que não vejo ninguém.

- Exatamente onde deveriam estar, onde você não pode alcançar nessa vida.

- Mas...

- Somente uma pergunta criança.

O gato cinza brincava com o rabo da gata branca. Safira, atordoada, pensava na última pergunta

- Para onde essa bússola aponta ?

A segunda engoliu saliva e olhou para suas irmãs. Respondeu, amargurada:

- Para o norte.

A Cartomante pediu para a moça embaralhar o tarô e escolher três cartas.

- O enforcado. Devoção, sacrifício, aprendizado.

A segunda carta, veio vazia. Nada. A primeira olhou para a jovem desconfiada.

- Que tipo de magika é essa, menina ?

Safira respondeu que não havia feito nada. Mágica ? Perguntou.

A Cartomante revelou a terceira carta. Era a besta, o fim, a anti-vida. Desperou-se e começaram a chorar. Saia daqui, saia daqui - gritou em uníssono. Safira sem entender levantou. Olhou a carta malévola, que parecia viva. Afastou e perguntou:

- O que isso quer dizer ? Tenho direito de saber.

- Essa carta não é do meu tarô, respondeu a velha choramingando. E desapareceu.

Os gatos dispararam em direção a ponte do Eufrates. Safira olhou para bússola e correu com os gatos.




(Inspirado em: Apenas o Fim do Mundo Novamente)

3.6.11

Mútuo

poesia é uma simbiose
entre a palavra e o poeta
entre o poeta e o leitor
entre o leitor e o mundo
entre o mundo e a palavra

etecetera,
poetecetera.

Ascensão

Ramessés curvou-se para encher o cantil com a água salobra do Nilo. Desde que Cairo foi bombardeada, o gosto não era o mesmo. Desenhou nas areias com o dedo as três pirâmides, símbolo da Resistência. Seu celular tocou e ao atender a ligação a imagem (pouco nítica) de Mary apareceu no visor em seu olho esquerdo.

- Os filhos de Anúbis chegaram em Nova Tebas. Estamos sem munição e os Escaravelhos estão exaustos. Menfís caiu. Acho que...

O sinal sumiu quando sondas do Grande Império Chinês atravessaram o céu vermelho. Ramessés era filho de vento. Abateu as sondas com um gesto e começou a caminhar para o sul. Apertou o braço, atingido pela Podridão das Múmias.

Quatro dias de caminhada no deserto eram suficientes para abater qualquer homem. Mas ele não era qualquer homem. Uma das bençãos que um híbrido tinha por seu sacrifício involuntário. Olhou para os céus e conseguia avistar Nova Tebas. Havia uma grande bandeira com um chacal negro hasteada em uma das torres. Conseguiu discernir corpos sendo arremessados da cidade. Sentou-se de pernas cruzadas e chorou como uma criança. Estava perdendo a sensibilidade do braço direito. Injetou duas doses de anfetamina e partiu a procura de um templo.

Digeria as últimas palavras de sua amiga. Se Ménfis caiu, Ptah estava morto ou aprisionado. Osíris e Seth sucumbiram no despertar, junto com seus filhos. Concluiu que o Faraó conseguira fugir de Nova Tebas mas seu paradeiro era desconhecido. Menos quatro deuses. Caos.

2.6.11

Terça-feira

Oito bitucas de cigarro no cinzeiro.
Mal lia as letras do cardápio.
Estava velho e gordo.
Milênios sem sua Psiquê.

Esticou as asas, ocas, sentado no balcão. Não se importava mais. O dono do bar olhou em sua direção e nada disse. A lamparina empoeirada piscava como um vagalume e a gaita cantava melancólica. O filho de Júpiter acendia mais um filtro vermelho e comentava com o dono:

- Gray, ain't ? Mas não obteve resposta.
- Tô muito velho pra essa merda.

Quando saiu, só restou uma pena encardida no tamborete.






Quarenta anos depois, uma garota encontraria uma aljava vazia que julgava ser uma relíquia guarani naquele casarão abandonado. O corda carcomida se desfez quando ela tocou o arco. Pegou a pena (que ela enxergava como uma de pavão), ajeitou entre as madeixas de sua orelha esquerda (afinal, Isabel era canhota) e passou a atirar flechas imaginárias em todas direções.



Fractal


Uiva para o infinito.
e enxerga tudo aquilo
que acredita,

Tantas possibilidades.

Se um dia houve um milagre (teísta)
foi a percepção
do infinito de nossa existência
no infinito de toda existência.














.
















Ode aos descobridores




Em terras não só tupi
(niquim)
O desafio é manter
força e honra
Óðinn.