17.12.11

Um dia desses

Acordei amuado.

Para alegrar meu dia só foi preciso um café, um livro e um beijo.

16.12.11

Chova

A chuva castigando a vidraça me faz pensar.
Parece-me tão doméstico o lupino do lado de cá do vidro, tão seco.
Enquanto deveria estar se molhando, explorando, caçando. Selvagem...

15.12.11

Caixa vazia

Abri a porta da sala e havia um pacote embrulhando em papel marrom.
Desembrulhei e encontrei uma caixa vazia, com um bilhete no centro.
A caligrafia feminina dizia:

"Envio-lhe tudo que você não me deu.
Preencha e mande de volta."

Pensei por vários dias.
E foi um grande erro retorná-la.
Vazia.
Vazio.









(Uma dose de morfina)

Ligeia

"Canso do mundo,
canso dos outros,
canso de mim,
até que minha vida descansa."

Mudo o mundo,
mudo os outros,
mudo a mim,
me cansa a mudança
me mudo e descanso.






(Canção da sereia)

Palavras descuidadas

As cicatrizes mais profundas são invisíveis.
Entretanto, as mais perceptíveis.

Acredite

Coragem é o embrião da liberdade.

14.12.11

Irlanda



Havia um quê de perfeição naquela manhã. Observava o sol nascer manso nos campos sempre-verdes da Irlanda. Tragava meu cigarro preferido e tomava o café na caneca, que repousava no beiral da janela de madeira. Ainda sentia o sabor do seu beijo e seu perfume em seu corpo. Sentia seus braços em minha cintura, sua voz manhosa chamando para a cama.

Olhava para o quarto vazio, lembrando daquela manhã perfeita. Fazia tanto tempo...

Palmares




Fugi da sentença do chicote
Molambo desalmado
Corri para o mocambo
Orgulho moído, destrato
E toda luta, toda fuga
Desespero, desamparo
Nessa selva fechada, desgraçada

Fugi, sobrevivi
Fui confinado no inferno
Para ser escravo em Palmares ?

Derrubaram Ganga Zumba
Ascendeu o rei Zumbi,
que foi o herói da resistência.
Mas não existem heróis na escravidão.

Anhangá



Um dia, o orgulhoso guerreiro abandonou o campo de batalha. Seus inimigos o perseguiam pela profunda selva. O jovem guerreiro corria desesperado como uma onça e largou o arco e a machadinha tosca. Os arbustos e o mato alto cortavam sua pele nua mas ele nunca parou. Fugia, corria, nadava. Entretanto foi descoberto e enquanto era arrastado pelos cabelos gritava:

- Fiz tudo que você sussurrou! Por que Tupã ? Por quê ?



O jogador



O homem entrou no cassino, impassível. Não era um cassino comum assim como aquele não era um jogador comum. Sentou-se à mesa e todos os outros jogadores sabiam quais eram suas intenções. A barba por fazer e o olhar cansado só enganava os menos talentosos. Haviam boatos que ele jogava pra resgatar sua família. Haviam boatos que ele apostara a vida de sua família. Que jogou contra o próprio diabo. Que ganhou a máscara de morfeu em um jogo de azar. Que perdera de propósito o martelo de Þórr para Loki. Jogou pela existência de sua terra natal, e venceu. Jogou contra a Cartomante, em seu próprio baralho, e ganhou a chave da terra dos mortos. Diziam que ele era o próprio destino, a sorte, a probabilidade. Todos os boatos eram verdadeiros.

Todos na mesa observavam ele vagarosamente colocar seus artefatos para aposta.
A orbe de Huutum, o anel do laterna-verde, o cajado de Moisés e o que sobrara da essência de Set. Todos sabiam que agora ele jogava contra a Peste, que roubara o segredo da Morte. Era a única aposta que valia tudo aquilo. Ele sabia que iria vencer e que não iria sobreviver muito tempo. Mas já tinha seu plano traçado.

Perdeu seus objetos, que poderiam comprar pelo menos dez mundos. Mas ganhou o que desejava e ainda levou a Bússola como souvenir.


5.12.11

Descobrir


Peço para que me acompanhe.
O caminho é escuro, eu sei, mas você pode segurar minha mão.

1.12.11

Uivo


O lobo está uivando!

(If you hear me howling, calling on my darling)

28.11.11

Ousadia!



O poeta é ousado.

Ousa falar de sentimentos,
de amores, de dores
de pensamentos, questiona
impõe, grita, confunde
Ousa limitar, expandir
Ousa falar de tudo, falar de nada

Como se entendesse alguma coisa...


Halo lunar



Uivam para a lua os que podem
Dama fria, pálida beleza
Escondem do sol os que temem
Deus das labaredas cegantes, da língua de fogo

Criaturas noturnas escravizadas pela rotina
Que sonham com tempos que eram amantes da lua

Ofuscados da verdade,
esquecem que são criaturas da noite
São lobos de faro aguçado,
São corujas de ouvidos vigilantes.



Há um vento que sopra
em qualquer lugar,
em qual lugar quer.

Música de flauta
habilmente tocada,
hábil mente tocada.




Contingente


Quero escrever versos convincentes
Quero dizer palavras persistentes
Ousadamente inteligente
Dar vida a esse sentimento florescente
Vamos lá meu bem, experimente.

23.11.11

Sépia



A menina olhava pela janela, estava tudo sépia. Inclusive a chuva.
Mas ela nem notou, só esperava o telefone tocar.





Rainha de copas




Esse sorriso fácil me encanta.
A chama nos olhos, a inquietude
a vontade e os sonhos
o carinho me desnuda, desarma
e novamente confesso,
todo receio (se algum dia existiu)
foi-se

Ó dama de copas, esse coringa
que ora é valete, ora rei
clama para que devolva seu coração.







(Um dos primeiros que escrevi.)

Último tango



Se encontraram no mesmo lugar que em todas outras semanas.
Mal se cumprimentavam e já estavam dançando no salão.
Por uma, duas, três horas. Não conversavam em palavras.
Não era necessário. Era ritmo, mãos e olhos.
Todos ficavam impressionados com a habilidade e elegância do casal.
No fim da música, simplesmente viravam as costas e cada um ia pra sua casa.
Eram pessoas totalmente diferentes e não se conheciam, sequer o nome.
E parecia certo.






21.11.11

Lucidez



Rogo-lhe, urro e uivo.
Escreva!
Seja um estandarte de cor e sentimento,
peleje por idéias absurdas
contra moinhos de apatia e dragões cinzentos.


Crua



Culpa-se deuses antigos, velhos demônios pelos os erros e defeitos.
Agarram-se a essa ilusão. Não acreditam (por ignorância ou simplesmente tolice) que são responsáveis pelos seus atos falhos. Acusam qualquer coisa, pura covardia.
No fundo sabem a verdade... mas odeiam encarar o fato.

Calíope



Não precisa acontecer para ser verdade.


A lebre e a tartaruga


A lebre queixava-se à tartaruga:

- É injusto, não é ? Você vive centenas de anos enquanto nós duramos poucos anos. Conseguirá fazer tudo que quiser, ir onde desejar entre tantas coisas!

A tartaruga sorria complacente e explicava:

- Mas lebre, você viverá o mesmo tanto que qualquer animal. Uma vida.




A noite



É inexplicável
Querer apagar essa dor inexistente
Você é a noite, caminho de estrelas
Tudo que não consigo ver,
que não consigo alcançar
E dirijo pela estrada sem iluminação
Você é meu caminho.
Não consigo ir sozinho.





(Bem velho, inspirado em the night)

17.11.11

Súbita


Ébria,
elegante,
fulminante.




(E de tão inquieto o fundo do copo arranhou a mesa)



14.11.11

8.11.11

Pêndulo




Esse pêndulo
me incomoda.

Quem o escolheu
para marcar o tempo
com seus movimentos ?

Confinado, encaixotado
Monótono, conturbado
Oscilando
futuro, presente, passado

Que vem...
Que vai....








(E me deparo lembrando o que não aconteceu ou planejando fatos consumados)




Cidade do pecado

Vesti o o sobretudo trançado, entrei na noite. Atravessei lâmpadas queimadas, cães carcomidos, mulheres-párias e becos sem saída. O isqueiro não me aquecia naquela noite fria, mas acendia meu malboro vermelho. Em um hotel decadente encontrei-me com Candy. Nome de vagabunda, combinando com mechas multi-coloridas. Cambaleei por aquele quarto insalubre, decorado por um tapete mais barato que a vodka na mesa. Não sabia se minha fraqueza era por excesso de álcool ou falta de sangue. Rasguei a camiseta, agora manchada de sangue coalhado e sujeira, mordendo a mão. A desgraçada cuidou de mim, me costurou e lavou. Mas se não fosse essa filha da puta, não eu estaria morrendo agora. Tinha tanto ódio nos olhos que ela nem me olhava.

Acho que desacordei porque só lembro da porta estraçalhar na minha frente. Os homens do Russo entraram na sala e o imundo do Dmitri estava com um sorriso macabro. Socaram-me o rosto e as feridas, que voltaram a sangrar. Com uma borboleta, rasgou um erre no meu peito. Perguntou-me onde estava a mulher, mas eu era durão. Um filho da puta durão. Cortaram um dedo da minha mão e uivei de dor. Candy choramingava no porão e eu conseguia ouví-la. Mulher imbecil. Acho que ela gostava de mim. Se meus algozes não a matassem, eu o faria. Ela se entregou, e os homens gargalhavam. Tiraram minha cara da poça do sangue, puxando meus cabelos. E gritaram que iriam brincar com ela na minha frente. O coturno esmagava minha cara no chão, forçando a assistir a cena. Mas eu era durão. Alcancei uma chave de fenda que perfurou a perna que me comprimia. Soquei o próximo com tanta força que ouvi o maxilar esmigalhar. Sobrou só Dmitri, que cravou a borboleta no meu ombro. Por alguns centímetros não perfurou meu pulmão. Rasguei sua jugular como uma fera. Minha doce Candy iria pra casa essa noite.

________

Cidade do pecado, parte 2http://erreponto.blogspot.com.br/2013/01/cidade-do-pecado-parte-2.html

Desbravar





Do lobo que aqui existia,
sobrou somente o eco do uivos
(e marcas)


E toda dureza de seu coração,
feita em pedaços...
feito em pedaços...





31.10.11

Travessia



Quero voar com asas de aço
Ascender aos patamares iluminados
E mostrar a beleza do denso
Para os olhos claros, despreparados.



Compasso



Arranho a pena no papel
o som agudo perfura,
rasga e nada registra
nada, inteligível

E a tinta que pensei ser ocre
foi teu sangue
E a tinta que não vi, invisível
tua saliva

Entorpecido ou alucinado,
não saberia
Lúcido ou dopado,
tempestade, calmaria

Me tirava o fôlego e os olhos
Declarava guerras, proclamava a paz
E resfriava na chuva o calor da fúria

Uma paixão,
destrutiva-construtiva
que só percebida quando se foi.


Mil faces


O que parecia bicho-da-seda acuado,
ataca com veneno aracnídeo
revelando que a seda macia no toque
é teia constritora, armadilha invisível
de intrigas e mentiras.



17.10.11

Aja!



- Haja paciência...

- Não! Aja!



Forma






Não gostava de ir pra escola. Me ensinavam matemática, inglês e biologia mas eu gostava era de aquarelas, violinos e filosofia. Inventavam-me distúrbios, complexos. Era um fora-da-lei. Me entupiam de pílulas que me deixavam engraçado e eu nem sabia o que tinha feito de errado. Me comparavam com as outras crianças, mediam meu cérebro na frente da classe. Pouco me importava mas todos riam. Todas as manhas, entregavam-me a mochila:

- Seja bonzinho, soldadinho.

























Pirotecnia



Gosto das palavras faísca e centelha
Gosto de tudo que muda, que transforma, que queima
E arde minha poesia, pirotecnia
Agitando as partículas,
tudo fica claro, ilumina
e ainda é brasa que não apaga
Aquece, acende e é pira
É começo e é fim.
Mas não para.


Sussurro



Trovo meu amor pra mulher mais bonita
Que às vezes tem nome, às vezes não.
E é anônima porque nomes já não são mais necessários.





Sal da terra



Esse amargor já foi agridoce
Detestável, cruel... porém sagaz
E sou o sal da terra
Purgo as malezas, absorvo as impurezas
Poupo-te e julga-me perverso.

Não há justiça para os justos.


Ternura velha


[...]
e devemos nos abraçar
até parecer que os braços vão arrebentar
nossa armadura de sentimento
tão intenso e amar
até transformar
nosso amor
lírico em lógica







Acorde


- Acorda!

Iago olhou chateado para seus amigos.

-Acorda! É muito complicado, cara. Acho que não vai dar certo.

Realmente era. Ponderou bastante. Seguindo os conselhos, voltou a estudar. A graduação veio, sem muitas complicações. Uma especialização em comércio exterior e um emprego bem remunerado. Apaixonou-se por uma mulher e na véspera do casamento, conversava com seu padrinho.

- Não desista!

Iago olhou aliviado para o padrinho.

- Não desista! Ela é a mulher certa, cara. Vai dar tudo certo.

E realmente deu. Eram um casal normal, viviam em uma bela casa e planejavam ter filhos. Que logo nasceram, sem muitas complicações. Um menino e uma menina. Tudo que uma pessoa podia querer, ser bem sucedido, esposa e crianças perfeitas. Envelheceu e confessou, no leito de morte.

- A vida não é só isso.

Iago olhou tristonho para a família.

- A vida não é só isso. Eu tive tudo e não tive nada. Eu queria ser artista, poeta e dançarino. Amo vocês, mas nunca quis casar-me. Queria viajar, viver e ter me preocupado com o hoje e não o amanhã. Minha herança é a sabedoria.

Fechou os olhos e tudo ficou escuro.














- Iago! Acorda, não desista! A vida não é só isso.

Olhou para os amigos, sonolento. Esteve olhando para o vazio por três segundos ou trinta minutos, não saberia dizer. Os conselhos coincidiram com sua vontade mais íntima.

- Galera, vocês estão certos. Vou correr atrás do meu sonho.





10.10.11

Equalização



Somos todos iguais e completamente diferentes.


Vibra


Devoro-te, pedaço a pedaço.
Consumo sua essência, saboreando cada nuance
Vagarosamente, seus fragmentos agregam-se aos meus
Me transformando, me corrompendo
Poder-se-ia afirmar que sua influência é imoral
Que me tornaria um eco das suas paixões
Que minha alma não vibraria em minha melodia
Mas esquece que optei por isso
Que enquanto te devoro, você me consome
Você escolheu isso
E vagarosamente, meus fragmentos agregam-se aos seus.

Meu
Eu Seu



8.10.11

Portal



Sentado na janela, escrevia e via a vida passar
Até me estenderem a mão, "Vem brincar!"
Pra janela, tristinha, disse: "Um dia vou voltar."


apud R.



Monografia significa monogamia.
Não devo flertar com a poesia.


4.10.11

Perda



Eu sei que essa amargura não cura
E eu tento com uma dose pura
Anestesiar a dor da perda prematura
Se me tiram tudo,
meu copo, meu cigarro, urro
Que é o que me sobra,
o brado doloroso de dom casmurro.





2.10.11

Ritual


Despeço da lua, contorcendo na cama
acordo com o sol na janela, tiro a areia dos olhos
Lavo-me com água quente nas manhãs frias
Meu banho gelado nas manhãs ensolaradas
E o aço da navalha raspa e rasga o pescoço
Mudando meu rosto, fico oco, mudo para outro
Troco a armação vítrea por clarividência inconsistente
Enquanto ela, desnuda, começa seu rito
Prossigo com o meu, trocando o hálito de beijo noturno
por fragrância de, sempre confundo, menta ou hortelã
Enquanto observo suas ofuscadas formas
dançando na minha cachoeira particular
Visto-me para esconder-me, as cicatrizes,
tatuagens, marcas da vida e a minha índole.
Engravatado, busco o perfume de marinheiro
Ela sai do banho e me dá um beijo, cheio de desejo
que a toalha embrulha mas não absorve
Rompendo o ciclo, a rotina totêmica
Quebrando meu rito, e me alegro
Que nesse disfarce de homem certo
Ela enxerga o coração descoberto.



Temos tempo



Hold my hand 'n' let it flow
Take your time, make it slow
Don't yield if you blush
There is any need to rush


Artrópode



Amor articulado é artrópode esbaforido
Rastejando, gesticulando, dançando
O mais doce veneno de escorpião, sem ferrão
Tecendo a malha mais bonita
que conforta e estrangula
vitória resignada, derrota indignada
Voando com asas coloridas
vivas ou desbotadas.




1.10.11

Palmares



Fugi da sentença do chicote
Molambo desalmado
Corri para o mocambo
Orgulho moído, destrato
E toda luta, toda fuga
Desespero, desamparo
Nessa selva fechada, desgraçada

Fugi, sobrevivi
Fui confinado no inferno
Para ser escravo em Palmares ?

Derrubaram Ganga Zumba
Ascendeu o rei Zumbi,
que foi o herói da resistência.
Mas não existem heróis na escravidão.




30.9.11

Perfume



Todos os dias quero cheirar-te
Perfume que me cheira a arte












Ainda não



Beto foi sobrepujado por seus inimigos. Estava gravemente ferido, agonizando no chão salpicado de sangue. Contorcia e delirava de dor. Anjos negros, valquírias malditas patrulhavam seu esconderijo. Sua vida passava vertiginosamente diante de seus olhos. Viu a imagem de seu pai, em seus últimos dias, que lutava bravamente contra um câncer nos ossos. O pequeno Beto segurava a mão do pai, que agora estava sem barba, careca no jardim de sua primeira casa. Olhava aquele homem admirado, enquanto montavam arapucas. Um pássaro, capturado pelo artefato, lutava desesperadamente para sair. O pai perguntou-lhe:

- Sabe porquê o passarinho está desesperado ?

- Medo de morrer, pai ?

- Não, filho. Vontade de viver.

Libertaram o pássaro, que escapou velozmente.

- Pai. Eu vou morrer ?

- Ainda não, Roberto.


Ergueu-se, Inabalável.


Mar sem Ana



Milhares de gotas derramadas mesclam-se ao oceano.
Dizem que são fragmentos desesperados por aceitação.
Mas na verdade o oceano que clama pelas pequeninas.


29.9.11

Lista



Comecei a escrever uma lista das coisas que não gosto.
Enquanto decidia, lembrei das coisas boas e deixei a lista de lado.


Zéfiro



Ícaro era uma fazendeiro. E para a sorte dele, não era um comum, e sim fazendeiro de nuvens. Criava nuvens, de todos os tipos de formas. E conhecia a essência de cada uma, o único jeito de não perdê-las, já que elas não obedeciam os moldes e limitações. Sem falar na volatilidade do humor, que algumas vezes era leve e alegre como algodão e em outras eram negro e pesado. Mas Ícaro conhecia e gostava de todas. As pequenas, grandes, horizontais, verticais, fibrosas, globulares, sólidas, frágeis.

E como todo fazendeiro, tinha seus ajudantes, que guardavam e guiavam suas nuvens. Eram três, Pé-de-vento, Vendaval e Rajada. A principal preocupação do menino eram os papagaios, estandarte de terror e papel. Rasgavam os céus, partiam as nuvens antes que essas pudessem atingir a fase adulta e chover. E vis, como eram, perseguiam, com cauda cerrilhada, as menores. O ferrão, impregnava vidro pulverizado, era fatal.

O ofício de criação de nuvens era uma responsabilidade muito grande e ele era o único no seu mundo. Adorava aquilo e não suportava as insinuações dos outros seres (que inventaram os papagaios) que ele deveria abandonar sua função. Eles só queriam que Ícaro deixasse de ser o que era, se tornasse igual aos demais.

Mas tudo isso era um sonho. O menino Ícaro acordou pela manhã, e tirando a areia dos olhos esqueceu que era fazendeiro de nuvens. Bocejando, abriu a janela. E já tinha uma pipa voando, cortando os céus. Torceu para um vendaval arrebatá-la.













(Obrigado pelo título)

Urbano



Pichou no seu muro:

"Mais amor, por favor!"

Dessa vez, não correu.






26.9.11

Helena





Helena observava inquieta toda escuridão em sua volta. Havia um homem sulista, sentado à sua frente, vestido elegantemente. Era negro, careca, estático, obelisco. Impassível, dirigiu-se à mulher:

- Sente-se. Havia uma pequena rocha levemente iluminada para onde ela dirigiu-se.

- Quem é você ? O que está acontecendo ? Eu morri ?

- Morreu, criança.

- Quem é você ? Repetiu a pergunta olhando nos olhos infinitamente escuros do homem.

O homem mudou o rosto, que ela reconheceu. E ele disse:

- Sou o Fim.

- Você é a morte ? Você ? Ela gaguejava e torcia as mãos.

- Sim.

A resposta atingiu Helena como um soco. A voz era idêntica, apesar de tom austero. Com um pouco de vertigem, ela perguntou:

- Por quê ?

O homem voltou a sua forma original e olhou para o início do universo, centenas, milhares de parsecs dali.

- Há tempo.

Depois de uma longa pausa, continuou:

- Nós acompanhamos todos vocês, Início ao Fim, durante o breve período que vocês existem. Logicamente, você só descobrem quem eu sou quando morrem. E lembrariam do Início, se não fossem tão novos quando ele soprou a Vida. Foi o preço que sua raça pagou, trocou o instinto pela racionalidade. Ele também acompanha vocês durante toda existência.

- Eu o conheço ? Perguntou, desnorteada.

- Sim. Você já o viu, uma vez. E várias vezes.

- Posso vê-lo agora ?

- Não.

Mais uma pausa longa. Helena, com lágrimas nos olhos perguntou:

- E agora ? Mas ele não respondeu.

Posteriormente falou-lhe:

- Helena, sua descendente é o único ser que me verá duas vezes. Por quê ?

- Minha descendente ? Não entendo, só tenho um filho.

- Teve.

A mulher começou a chorar. Enxugou os olhos com as mãos e amedrontada, respondeu:

- Não sei. Não entendi nada, nem sei porque estou aqui.

Silêncio absoluto.

- Só isso ? A voz dela falhou e mesmo assim ouviu sua resposta:

- Sim.

E desapareceu.





Primavera

A(h!) primavera começa em setembro
Cores, sabores e odores até dezembro

E quando nela me descubro
Na janela vejo a chuva de outubro

E com pássaros e abelhas em novembro
Sei que das flores sou poeta-membro

E com um sorriso tudo vai acontecendo
Reescrevendo, cantarolando até dezembro.


22.9.11

Felic(idade)



Felicidade rima com liberdade
e a gente só descobre depois de certa idade
quando ela bate, a saudade.


Simples



Canto porque sei cantar,
Não porque vocês podem me ouvir
Não porque assim posso me ouvir
Mas porque eu sei cantar.

Retrato



Se não tenho tato
Se não mantenho contato
Não julgue (o coração-retrato)
Pelos primeiros atos

Deveríamos ser gratos
Que às vezes sou sensato
Entenda meu recato

E pra ser exato
Apesar do meu afável trato
Meu amor não é imediato
Mas saiba que já estou apto.








19.9.11

Livre


A menina gritou para os seres feéricos:

- Minha mãe disse que vocês não existem. Não acredito em vocês. Não posso.

- Não importa, disse a fada-lilás abraçada ao sátiro. Nós acreditamos em você, Isabel.

Barganha


O único preço a se pagar pelo amor, é amar.


Efeito colateral


Você descobre que está amando quando seu corpo começa a te trair.
Olhos, mãos, lábios, necessariamente nessa ordem.
Com lágrimas, suor e palavras. Não necessariamente.







(Adaptado por ela, das palavras doces.)

Morfeu



Se não pudéssemos sonhar, seriamos estáticos. Vinculados à tecnologia, ao racional. Sem aspirações, sem devaneios ou loucuras. Se não tivéssemos pesadelos, não aprenderíamos a conhecer nossos medos, enfrentá-los. Não aprenderíamos a acordar e ver que o sol já nasceu.


Sonhe!



Dúbio



Minhas palavras significam exatamente o que quero e não quero dizer.

Sempre e nunca
acredite e duvide.


15.9.11

Trickster



That's my plot,
My poetry log.

Feelings comes and fades,
Fading is the sun that shone.
He's the jack-of-all-trades.
Actually, master of none.



Forte



O menino carregava seu boneco de plástico para o lago. Boneco não, figura de ação. Bonecas eram coisas de meninas. E ele detestava as meninas. Era doloroso despedir do seu amigo. Matias era um índio estático, feito de plástico duro cor de parede. Sim, de parede. Ele não sabia qual era o nome daquela cor mas era a mesma da parede da sacada. Perfeito para camuflar nos cantos.

Matias era o preferido, apesar de não ser o único. Fazia parte de uma tribo multicolorida. Era o líder da tribo que segundo a caixa, era Apache. O único com cocar. E era inimigo mortal do Cowboy Billy (segundo seu primo, era um cowboy famoso, sabe-se lá aonde).

Caminhava com passos pesados. Sua mãe mandara ele desfazer dos brinquedos, já era rapaz. Lembrou-se das danças da (na) chuva que Matias lhe ensinou. Pegou alguns gravetos e começou a construir uma jangada tosca. Amarrou com a linha do carretel (sem cerol, o pai não permitia).
O guerreiro navegou obstinado, teria um fim honrado. Agradeceu ao menino pelos inúmeros dias de felicidade compartilhada. A criança olhava seu amigo afastar com o vento úmido quando gotas começaram a cair no lago. Gotas pesadas, misturavam-se. E não era chuva.

Essa foi a lição mais importante que ele aprendeu sozinho. Aprendeu a dizer adeus.


(Continua...)





























Mas ele cresceu. Passou a amar as meninas. Seus amigos agora eram dinâmicos, feitos pele e coração. Descobriu o nome daquela cor, que era creme. A sacada enorme, agora mal o comporta deitado. E esqueceu de Matias, assim como esqueceu que sabia dizer adeus. Mas aprendeu de novo:


- Adeus, velho lobo.


(Continua, um dia...)

Que mania!



Que mania que eu tenho de escrever a(`) noite, sonhando com o dia.






14.9.11

Babilônia


Não há nada mais irritante que histórias contadas pela metade.
Por exemplo, hoje pela manhã eu pensei em escrever. Detesto quando













(Pra descontrair)


13.9.11

Menos palavras



Não consigo falar quando estou amando
Pois prefiro amar do que ficar me explicando.



Chácara


Sou da época do filtro de barro,
Do joão-de-barro,
Menino sujo de barro.


Escritor



Não pedi pra você ser temerário. Exigi que não fosse covarde.



Truque




- Não saberia dizer se as mãos são mais rápidas que os olhos - disse ela ao mágico. Pensei que estivesse hipnotizando.



Peregrinação




Sou beduíno procurando flores de cacto
Nômade no deserto
Esquivando das miragens
machucando à vontade

A areia apaga minhas pegadas
E nunca me perco (consulto as estrelas)

Só me perco no aroma das flores de cacto
Que mesmo no deserto são belas
Bravas, consumindo meu pacto












Commedia dell’arte



Tantas vezes disseco o meu ser que esqueço de ser.

Não finja que é Pierrô, Arlequim!



Lobisomen



Era lobo desconfiado. Seguia seus instintos.
Mas também era homem apaixonado. Seguia seu coração.
Lupino, esquecia as emoções. Afastava as tristezas e os amores.
Humano, transbordava sentimento. Procurava os sorrisos e as lágrimas.
E essa é a maldição do licantropo.




6.9.11

Cubo de rubik




Equilibrando como trapezistas

entre o abismo da paciência
e do desejo

descobre-se que a distância entre os dois

émenordoqueseimagina

e maior quando se percorre .


Paciência, paciência..





Aos amigos




Proclamo aqui minha amizade,
minha declaração de dependência.

"Digam à alcateia que fico!"







Desconfio



Desconfio de sorrisos sem dentes.
De cartas sem segredos.
De crianças comportadas.
De tristezas sem alegrias.
De primavera sem flores.
De melancolia sem gaitas.
De paixão sem beijos.
De amor sem promessas.
De poetas comedidos.


Borras



Retenho o excesso
borra de café
que moeu e remoeu

café que borra
transborda
queima
[Sopra! Sopra!]

café doce
café amargo
café salgado

se coador de pano,
é manchado.
o coador de papel,
descartável.








5.9.11

Resistência



Vocês tomaram minha terra,
desonraram meu povo,
estraçalharam meu orgulho
e agora ameaçam minha vida ?

Pois venham.
Agora, sou o mais perigoso dos homens.


Bula

Solidão:

Esse sentimento é contra-indicado em caso de amigos.















(Obrigado e por nada.)

Cárcere



Perguntaram-me se eu estava armado.

Disse-lhe:

- Trago minha pena, minhas lembranças e todos sentimentos que um homem é capaz de carregar.

Aterrorizado, anunciou minha prisão.

Bobagem. Era minha liberdade.



4.9.11

Forjaferro

Sou rijo
Sou lâmina temperada
Sou pé calejado
Sou sangue
suor e lágrima

Nem tormenta
Sóis, Luas
Gelo, Brasa
Vilania ou radiância
Me abalará







Novelo

Menino, não enrola!
Desenrola!
Puxe esse fio! ache a ponta
Não é Creta, Teseu
Não bifurque
Não disperse
Convirja

1.9.11

Agosto



Assim a trovadora entoou
mês quente e poeirento
de gosto e desgosto
poeira de ampulheta
que escorre
pinga tempo
dependendo do vento
que tanto leva, tanto trás
tanto faz...



(Da poetisa que inspira, que é flor na poesia, em época de flores brancas e solares)



Marinheiro

Naveguei nos sonhos mais tolos que construí na areia
você trouxe conchas arco-íris para enfeitá-los
ergui muros mais altos, cavei os fossos mais profundos
com algas você coloria os jardins e desenhava janelas
invoquei exércitos de sonhadores que corriam atrás das ondas
e você me ensinou a amar
veio o mar

água salgada que permeava minhas barreiras
preenchia e derretia
marinheiro sem pátria, refém em meu castelo de areia
que agora era multicolor
nas formas de sonho

Mas era só um sonho que você me convidou
Perguntou-me que se um dia, você partir
eu voltaria a sonhar
Mas era só um sonho.

O mar não é para os sonhadores de areia.
Parti, devastando seus sonhos
que você teimou em erguer na areia.
Afoquei-me em nossas lágrimas
que já não podia compartilhar.
Rainha de copas refém em nosso castelo de corações.




Cidade de lata

Colhi amoras e amores
Bebi o orvalho e acordei na cidade tão escura
Haviam tantos ponteiros que constringiam meu tempo
Tantas vozes roubando meu pensamento
e só queria deitar e ouvi-la.

Os pássaros eram apitos, os cavalos eram de ferro.
E seguiam sem nenhum capricho
Ofuscando as estrelas, amando marionetes
Como se pudessem amar!

Esconder-me-ia mas não
Brilho ou pária!
Bebi, um atalho. E sonhei com a infância tão bonita.

Nuvens brancas, não cinzas.
Céu azul. Não cinza.
Cheiro de grama e não de cinzas.
Amoras e amores.

28.8.11

Pedra-pomes

Às vezes me sinto naturalmente artificial
Um mergulho quente em águas frias
Sólido como pluma
Vendaval telúrico

Contornando as idéias
Atravessando os corpos

Um ímpeto tranquilo de afirmar o que não sei
E negar minhas certezas.

Espelho



Acredite mais nos olhos que em palavras.


É porta de ferro.
É alegria
e é tristeza.
Reflete.
Reflita.





Estige

Quando Tétis me mergulhou no Estige, segurou-me pelo coração.
Indestrutível, me disseram.

Ah...
Eu e o meu coração-de-Aquiles.

26.8.11

Girassol



Invejo o girassol
Sempre sorrindo
girando no carrossel
de amor e calor



Sol
Gira
Sol Gira Gira Sol
Gira
Sol







25.8.11

Raiz funda



Toda saudade arde igual ferrete
Todo cerne curado doí no frio
Ferido coração velho pelo florete
Uivo prostrado do lobo vadio


24.8.11

Almirante

Sou lobo do mar
Tenho coração de pirata
Inquietude que só
um barco pode sanar

Cão do mar, covarde
Flagelo, são minhas alcunhas
Vivendo cada moeda
Matando cada patife

Finjo, minto
Roubo, bebo
Luto, cuspo
Morro e nado.

Nado e nada a temer.
Podem matar o almirante
o corsário, o pirata
Mas eu sou lobo do mar.
E não tenho medo de nada.

Poesia



Quando as palavras estão em descompasso com o coração.



19.8.11

Cinza e fumaça



As flechas são farpas incandescentes no coração.
Queima quando entra e logo apaga. Confundem-se com a paixão.
Mas a farpa incrusta. Tente removê-la sem sofrimento, desafio!
Contorça de dor!
Quanto a mim ? Tenho coração de madeira.

Cuidado, não se iluda. Não é insensível, imune às farpas.
Elas ainda entram e fragmentam.
Mas elas queimam e não apagam. (Faço muita fumaça.)
Consome.







Incrusto.





Removo.





Contorço.



Grilhões



Troquei minha liberdade pelo amor.
E ele quebrou meus grilhões.


Coringa

Batiam no bobo-da-corte,
que era mudo.
gargalhavam, chicoteavam
Coitado!
nunca perceberam...
Ele gritava, chorava, dançava.
Eles eram surdos.

Ícaro era...

A pessoa certa no lugar errado.


[...]


Tão difícil plainar.
Não combino com o moderado.
Entre o sol e o mar, prefiro o sol e prefiro o mar.
Queria ser Ícaro.
Derreter no sol e mergulhar no mar.

18.8.11

Dizem

Dizem que a ignorância, por vezes, é uma dádiva.
Pensar demasiadamente pode doer, cansar...
Mas eu não sou capaz de abraçá-la.
Sou sedento.

Dizem que não devemos nos expor.
Perder a sensibilidade é o conselho.
É algum temor de tocarem-lhe a alma ?
Prefiro o toque
que afaga ou que arranha.

Dizem que o mundo é dos espertos.
Tem que ser malandro, tem que ter jeitinho.
A sobrevivência do mais forte.
Repúdio. Abominação. Fascismo.


Dizem, dizem, dizem.

Falam tanto e não dizem nada que valha a pena saber.

12.8.11

Corujas



Estamos todos no telhado.
A maioria de nós olha para o céu.
Mas alguns procuram as estrelas.













Música (para os olhos)



A bailarina apoia na ponta dos pés
Não sabia se queria alcançar ou voar.

A bailarina salta graciosa
Não sabia se queria alcançar ou voar.

A bailarina girou em seu próprio eixo
Não sabia se queria alcançar ou voar.

Ela queria voar e alcançar.
Ela queria alcançar para voar.


Timidez


Acordei um pouco tímido.







(suspiro)





Adjetivo



Havia muito tempo que ninguém passava ali
O caminho era ( )
O lobo sem nome trilhava sem pretensões
E deixava pegadas.









Milagre

Estava preso em uma redoma translúcida. Pouco espaço pra se movimentar. Ouvia milhares de sons abafados do outro lado. Parecia chamá-lo. Debatia-se mas sua prisão restringia seus movimentos. Tentou gritar mas não havia ar nos pulmões. Movendo o pescoço, atingiu as paredes da redoma com o rosto. Trincou. Com esforço titânico, repetiu o movimento. A camada cedeu. Sentiu o toque da luz do sol. Sentiu o ar matinal no peito. Ouviu seu pai cantar. Nasceu.

Definição


R.
Erre.
Erre o ponto


11.8.11

O amor da menina


Não é preto nem branco
é cinza,

Não é cinza nem fogo
é brasa,

Não queima nem apaga.

Aquece.

Demora.


Fogo fátuo

- Vô Pedro, conte uma história pra gente.

O um dos prazeres do velho de barba branca era deleitar os netos com suas estórias. Seus filhos e filhas não gostavam disso. Todas as vezes as crianças ficavam morrendo de medo e tinham pesadelos. Os pais falavam para elas que eram contos de fadas.

- Contos de fadas. Há! Se seus pais soubessem como são as fadas, não denominariam assim.

- E como são as fadas, vôzinho ? Perguntou a menina mais nova.

- Essa é outra estória, Vi.


"Dois homens pescavam no pantanal, em um barco. O pai, ensinava o filho a pescar com vara de carretilha. Fazia muito tempo que não viajavam juntos, desde que o rapaz havia passado no vestibular. Precisamente, seis anos. Conversavam baixo, para não espantar os peixes. Queriam um belo de um pintado, mas só estavam pescando jaú. O pai comentou:

- Toda vez que venho pescar no pantanal lembro do meu pai, seu avô. Ele vivia me aterrorizando com a lenda do Boitátá, que sempre aparecia em brejos e pântanos.

- A cobra de fogo, pai ?

- É. De vez em quando apareciam algumas luzes em cima da água e ele me dizia que o Boitátá observava. Era um vigilante.

- A propósito, pai, eu disse cobra, mas aqui no Brasil praticamente não existem cobras. É tudo serpente.

- Sério ? Orgulhava-se da inteligência do filho.

- Sim. O filho sabia que o pai, apesar de ser um fazendeiro muito rico, não era muito instruído. Apesar disso era sábio e perspicaz.

- Mais uma coisa pai. Essa lenda da serpente de fogo. Na verdade não passa de uma ilusão. É só fósforo branco.

Parou de falar, por alguns segundos pensou que tinha fisgado alguma coisa. O pai, sem entender o que o filho disse, brincou:

- Só porquê você agora é doutor, não precisa se exibir pro velho."


- Peraí, peraí. Vôce não é médico, vovô ? Essa história é sua com seu pai?

- Mauro! Pra variar, impaciente, né? Vou terminar a história.


"O rapaz respondeu:

- Ah, desculpa pai. Não era a intenção. Fósforo branco é uma substância que é liberada de animais mortos, em decomposição. E quando entra em contato com o ar, entra em combustão. Quer dizer, pega fogo.

- Mas porquê o Boitátá persegue quem corre dele ? Meu pai me disse que quem o vê, pode ficar cego ou louco. Deve-se ficar parado, de olhos fechados.

- Olha, provavelmente é o movimento do ar de quem foge da explosão. "Puxa" o fogo. Louco eu não sei, mas o fósforo branco pode queimar bastante. É usado em fogos de artifício, afinal.

- Hum... sei não, filho.

- Mas pense, pai. O Boitátá protege os campos e as floresta de quem planeja queimá-los. A palavra é tupi-guarani. Mboi é serpente, tata é fogo. É uma lenda, um mito.

Ficaram em silêncio por alguns minutos. Ouviram um barulho na água mas era só um jacaré saindo para a margem.

- Falando nisso, o senhor vai queimar a pastagem inteira de novo?

- Vou. E tô precisando de mais gente trabalhando lá. O pasto tá ficando ruim.

- Mas eu já te disse pai, queimar é prejuízo. O senhor não tá pensando no longo prazo. O solo se esgota. Você deveria construir um silo e armazenar o feno. A namorada de um amigo de faculdade é especialista nisso. Se o senhor quiser, posso falar com ela.

- Mas uma moça, filho ?

- Pai, com todo respeito, mas o senhor vive no passado.

Ouviram outro barulho na água e viraram para ver o que era. Era um fogo fátuo, fósforo branco em combustão. O rapaz disse com uma risada.

- Olhe, pai. O seu Boitátá.

Aterrorizados, viram uma imensa serpente com olhos em chamas emergir do rio."


- E foi assim, crianças, que seu bisavô ficou cego. E eu passei a contar estórias.

Ninguém dormiu naquela noite.



10.8.11

Sacrifício

Safira: Parte V


A batalha foi feroz. A águia gigantesca perfurava o ventre de Prometeu, que urrava de dor. Ramessés voava com o vento e disparava ininterruptamente. Hércules investiu em direção a ave colossal e esmurrava sua pata, quebrando ossos da garra da criatura. Os djinn golpeavam as asas que jorravam um sangue intensamente vermelho.

A luta era cruel. Em contrapartida a águia perfurou o braço de Hércules, expondo sangue e osso. Com uma das garras, subjugou Olavo que era esmagado e rasgado com uma força descomunal. O gato cinza, escondeu-se aterrorizado. O outro, que era preto, viu-se sem saída entrou no combate. Todos iriam morrer se não optasse por isso. O bote foi pavoroso. O que era o gato, agora pantera, com garras e dentes de ferro rasgaram o pescoço da ave. Safira estava atordoada com tamanha ferocidade do combate.
A intervenção do filho de Bast não foi o suficiente para impedir a morte de Olavo. Farrak caiu de joelhos do lado do seu amigo, seu irmão. Lágrimas evaporavam de seus olhos. Safira correu para arrastá-lo de lá e ao ver o corpo de Olavo esquartejado, vomitou. Hércules, com um esforço sobre-humano, segurou as asas da águia gigantesca, que se debatia com a pantera pendurada no pescoço. Ramessés perfurou os olhos com disparos e a ave de rapina aceitou seu destino. Farrak escondia o rosto com as mãos cobertas de sangue. O gato cinza lambia o irmão, que agonizava. Sacrificara-se. Hércules partiu as correntes de Prometeu. Em outros tempos precisaria de da imortalidade de Quíron para trocar pela liberdade do titã. Mas Zeus estava morto.

- Titã, te libertamos. Você deve a vida a nós. Responda as perguntas da mulher.

- Hércules, mais uma vez você cumpriu seu destino e me salvou. Meu débito é eterno como foi e como há de ser. É eu já esperava pela menina. Pois eu sou Prometeu, e sei onde está o fogo.

O sol dourado beijava o horizonte enquanto Ramessés, Hércules e Farrak acendiam as piras onde estavam o gato e Olavo sem dizer uma palavra. Safira afagava o gato cinza, que parecia chorar. De todos, era o djinni quem ela mais gostava. O fogo crepitava.

Com olhos marejados, Safira aproximou-se de Prometeu e programou o computador para traduzir grego antigo.

- Prometeu. Onde está o fogo ?

- Com você, Safira. O tempo inteiro.

Ela não compreendeu e lembrou-se da conversa com a Cartomante.

- Mas a Cartomante disse que estava no "lugar mais difícil do Tudo, no lugar mais fácil do Nada."

- E ela poderia ter mentido. Mas não o fez.

- Como assim ? Não entendo! Gritou as últimas palavras, chorando.

- Siga para o norte e descobrirás. Você deve viver, essa é a sua tarefa. Você é a portadora do fogo. Você tem a bússola e amigos formidáveis. Eu ficarei aqui e atrasarei o que te persegue.

Farrak perguntou:

- Você sabe quem ou o que é ?

Prometeu respondeu, virando-se para Safira.

- Sei. Você ainda não percebeu, menina ? Você é última mulher, a última humana. Você não deveria estar viva. É a Morte. Quem te persegue, é a Morte.

9.8.11

Máscara

A vida era o palco de Arlequim. Dançava invisível, era criatura de desejo e luxúria.
Certa vez, em um festa, apaixonou-se por uma mulher, sua Colombina. Ardiloso, entregou seu coração envenenado. Era um baile de máscara e Arlequim era o mestre dos disfarces. Dançava e flertava com todos. Exceto uma mulher sentada no balcão. Perto dela um cinzeiro e uma garrafa de uísque puro malte. Sentou-se ao seu lado e perguntou-lhe:

-O que está fazendo aí sozinha ? Por quê a tristeza ? Venha dançar, viver.

A bela moça, que estava fantasiada com uma túnica branca e uma máscara com penas de pavão assustou-se com a pergunta mas vendo quem era respondeu.

- Estou sofrendo, Arlequim. Estou amando. E não sei se ele me ama.

Arlequim, planejando deixar sua Colombina enciumada, convidou a mulher com voz doce:

- Mas uma moça tão linda. Dance comigo e esqueça tudo! Não faz bem remoer sentimentos. Venha, disse tocando a mão da moça.

Indiferente, ela respondeu:

- Obrigada, mas não. Tudo me parece incerto e vago. Estou apaixonada por um homem e não sei o que fazer. Estou deprimida. E acho que ele não me ama.

Arlequim, que era luxúria e desejo estranhou a recusa da mulher. Isso nunca tinha acontecido antes. Percebeu que ela que era sua Colombina. Explodiu de amor e ciúmes do homem. Certamente era Pierrô. Vil como era, sugeriu:

- Menina, tenho a solução. É simples. Ouvi dizer que o Cupido está nesse baile. Vamos procurá-lo e fazê-lo curar seu coração.

Isabel respondeu, em lágrimas.

- Mas Arlequim... eu sou o Cupido.






(Inspirado em Watchmen)

7.8.11

Metamorfose

Há pessoas que entram em seus casulos
pra escreverem versos de suas vidas.

(Esporadicamente-sempre acontece com todo mundo)

O objetivo é claro
transformar a solidez

(casulo)

em leveza, voar.

Algumas pessoas eclodem borboletas
outras mariposas

borboleta, mariposa
eu gosto de borboleta
mas adoro a mariposa

Flamengo

Certa vez eu ia falar do Mengão
Das intempéries no estômago
Do zunido nos ouvidos
Do coração acelerado
Do grito alucinado

Mas lembrei que só escrevo
do que cabe no coração.

Reflexo


Me inspiro em outras pessoas,
outros lugares, outras palavras

Parte da inspiração são vocês.

Ou seja,
Quando escrevo sobre vocês
por definição, falo do que é m(eu)

(Exceto quando escrevo sobre mim. Aí é poesia de vocês)


Pena

Ela correu, correu e correu.
Estava desesperada. Ia explodir.
Ignorando tudo em seu caminho, correu
Pena, ela sentia.

Ela correu, correu e correu.
Urgia. Chegou no seu destino.
Sentou-se pegou a caneta
e o caderno. E explodiu
em poesia.

5.8.11

Impertinência



É pretensão minha fazer poesia sobre o Amor.
Mas o meu amor é só poesia.


Passarinho



Hoje eu assoviei poesia.
Foi curto e foi belo.
Olhei para os lados e Ninguém (ou)viu.
Imagine a vergonha!
Ninguém me ou(viu) passarinho.

Filho da lua, filha do sol



Meu pai era a lua.
Me dava coragem iluminando a escuridão.
Minha mãe era o sol.
Me dava carinho esquentando o coração.

Corria por toda terra. Dançava em todas montanhas.
Uivava para o pai como lobo.
Piscava como vaga-lume.
Piava imitando coruja.
Coaxava como sapo.
Gritava, morcego.
Caçava. Gato.
Tudo isso para mostrar para o pai que o amava.

Dormia por toda terra. Pulava em todos rios.
Cantava para a mãe como rouxinol.
Mudava como camaleão.
Sorria imitando girassol.
Cativava como a raposa.
Respirava, grama.
Pensava. Macaco.
Tudo isso para mostrar para a mãe que a amava.

Não se sentia só.
O pai iluminava a escuridão.
A mãe esquentava o coração.





Sertão

A cigarrilha entre os dois dentes mostrava que ele era uma matador experiente. Mordia o copo de dose sentado no tamborete manco. Olhou para o lado direito e um homem dormia no balcão, com o chapéu de couro no rosto. O rádio velho ecoava.



"Se entreeeeeeeeeeeeeeegaa, Coriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiisco!
Eu não me entrego não
Eu não sou passarinho pra viver lá na prisão"


Cuspiu no chão de terra batida e o dono da tapera balbuciou alguma coisa . Coçou a barba crespa e seca despretensioso. Apoiou os cotovelos surrados no balcão e intimidou com olhos de gavião o velho impertinente.



"Se entreeeeeeeeeeeeeeegaa, Coriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiisco!

Eu não me entrego não
Não me entrego ao tenente

Não me entrego ao capitão"



Dois homens fardados entraram no casebre sem porta. Um andou até sombra quente da janela e o outro de bigode ficou na entrada. O matador observou a expressão de terror no rosto do dono e tateou discretamente a jaqueta de couro curtido. Sentiu o cabo frio da pistola. O homem de bigode preto falou:

- O tempo do cangaço já acabou, sem vergonha. Lampião tá morto. Renda-se que o coronel vai perdoar.

Tragou a cigarrilha pela última vez naquela região.

A chama apagava-se enquanto girava em direção da janela.

O bandido esquivava-se enquanto girava em cima do balcão.



"Eu me entrego só na morte

De parabelo na mão

Se entreeeeeeeeeeeeeeegaa, Coriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiisco!
Eu não me entrego, não!
Eu não me entrego, não!

Eu não me entrego, não!"