12.7.18

Escombros de mim


Despetalando os cravos
amei à queima-roupa

Urgências de lembranças
resgatar o tempo perdido
e não esquecer o fim de tarde,
esse sonho suspenso no ar quente

mas venha
venha mesmo
venha de qualquer jeito

sob os escombros de mim
que são engolidos pela orgulhosa areia
que sempre cede aos caprichos do vento
venha
me acuda
o que eu fiz de mim?
me acuda,
cavemos com dedos ávidos
para afastar o pavor
Tudo que tenho é o que sou
e tudo o que sou é o que somos

Estou nu sob os escombros de mim
esta nudez que só você viu
descoberto, desarmado
ondulando sob as areias
peleja frente a realidade ofídica
de um coração calcificado
que estranhou demais quando toda pureza do amor o tocou.





8.6.18

Jazida


Como marinheiro
roguei um caminho
ao sol e às estrelas

Segui a bússola-coração
Consultei todos os sábios
velhos,
crianças
e mendigos.

Indaguei aos silvestres, ao florir,
aos deuses, ao vento
e até a uma ou duas estações.
Talvez eu te encontre na encruzilhada
talvez eu siga a curva do poeta
talvez, e talvez mesmo,
eu veja um farol bem de longe
ou vários
ou nenhum.

Tateando apavorado na forte escuridão
sonhando com um porto pro navio que sou eu
deixo para trás milhas, sereias e tesouros.

Busquei sempre o norte 
e esqueci que o mérito
não é o destino
nem céus ou trevas
mas a jornada.

Explorando a jazida que é a vida
Na minha, sou pioneiro.


5.6.18

Depois de tudo


Depois de todas alvoradas pares
dos dias que eram poemas
da terra, do suor e frio
de palavras vermelhas
de deitar em sua risada
de trazer aquela caneca
que você pediu.

Depois de nadar em suas lágrimas
de mergulhar no crepúsculo incerto
de afiar nossas adagas
de acreditar nas mentiras que você nunca contou
de bordar em meu peito o véu de Maia

Depois de correr com os cães pelos prados
de te fotografar deitada ao relento
de dançar com as estrelas cadentes
de ir e voltar à lua em suas asas
de perder a razão e encontrar o que não iria se perder

Depois de explodir para dentro do mundo
de vender sonhos derretidos
de voar nas folhas daquela árvore
sem deixar um rastro sequer
no dia que te conheci.

Depois que as armas foram postas
que os céus queimaram
que as almas cantaram os ritos
que novas estrelas surgiram
(e todas outras apagaram)

Depois que nossas lágrimas secaram
que nossos corpos se foram
que retomei fôlego de seu beijo

Depois de tudo isso

Sobrou uma só carta
mordida e manchada
que o tempo memorou
testemunha solene
que
nunca esqueceu
quanto eu te amei.

Viço

Trovei a ti o desfolhar
Vento quente que convida à copa
Descansa na relva eclipsada

Ouvi de um velho asceta que
sempre
há um segredo enraizado
há um poema escrito em cada tronco

Cada galho uma vida
oníricos e fortes
concretos e frágeis
alguns timidamente longos
outros intensamente curtos
todos fazem a árvore
obelisco do tempo

Retorcida por conhecer demais sua terra
banhada por lágrimas celestes ou afagos solares
ainda verdeja em sua crença
um sonho esmeralda.

28.5.18

Escafandro


O milharal é testa-de-ferro
da fenda soberana no horizonte
A neblina prateada adere às pontas
em uma estrada vazia
repleta de memórias
grandes demais para se segurar

Subo com a nuvem enquanto
a poeira abaixa
a gralha exige o segredo
destinado ao cemitério, reluto
e enterro em meu peito
um baú repleto de águias moribundas

O milharal é cúmplice
das mariposas em brasas
exausto de despedidas
de olhos borrados
de nada esperar
destrincho a cerca e a vala
e chamas me lambem as lágrimas

três lobos
e todos os dois corvos
observam a estrada
enquanto decido
repouso na pira
me deito na bruma
uma coruja pia no lago
me afogo em um salto
a lua aninha em meu peito.

23.5.18

Por favor


O sol
mareja a nuca
e nunca me aquece

Como relógio
broto nas ruas
e conto os grãos de areia
em mar de dentes perolados
apago e
escondo
o faminto lobo na enseada
o corvo de olho oco
o canário de peito calado
as estrelas caindo
os mares fervendo
e sonhos de s  a    p    a     r

doutor, por favor

tenho sangrado demais
nado exausto no abismo
tire meus ossos da lama
queime o sopro que escapa

doutor, por favor
quando haverá cura pra minha dor?

me deito e esfrego
nos bolsos surrados
as rochas
dois centavos gastos e dourados
afundo
no lago




gelado



Três da manhã

Num quarto abafado
às três da manhã
escrevo o poema sem fim

Se te pareço melancólico e ferido
Se a fumaça tóxica te incomoda
Se meu cheiro te morde
Se o timbre derrete tuas coxas

Abra a janela e
me olhe de novo.

Crua alma exposta
pena pingando a tinta rubra
espremida do peito
dançando ébrio no papel pardo
um bilhete que é uma súplica
bebo e me farto no
vermelho e no negro
Antes que afogue em meu sangue,
abra a janela
murmure em meu ouvido
um poema sem fim.

Não me siga,
Não me cegue,
Não me cure.

Gosto da dor,
sugo da chaga
entrego minhas armas
morrendo sem pressa
num quarto abafado
às três da manhã.




22.5.18

Aurora


Arranquei todos os botões do jardim
com um suspiro
quando te vi
Primavera dos cabelos esvoaçados
colorindo as estradas caiadas

Aqueço a boca
(A tua)
Sob a névoa rasgada

Sorvo o rio
o riso
a moldura vislumbro encantado
mordendo o bico perolado

Acordo pra te cheirar
Não durmo pra te pensar
Me descanso em teus muros
Te entregas ao meu tato
Enquanto cubro teu corpo molhado de palavras.


Quase você


Te enterrei em minhas entranhas
enquanto te acompanhei até a porta
e você levou meu livro
de
poesia
favorito

Isolado como artista
Não ouso cruzar o espelho
caminho descalço no escuro
a um passo de chorar
em direção
a alguém é que quase você

O frio açoita quem trova
e mancha o coração-cinzeiro

Do intolerável espaço
entre minhas janelas azuis percebo
que do lado de dentro continua chovendo
pingando
pingando
pingando
na gaveta entreaberta que te guardei
cheia de giz

Te enterrei em uma cova rasa
onde eu dancei comigo
e sozinho
uivei
para alguém
que era quase você.

16.5.18

Um céu que era mar

Ourives das areias escoando em meus lábios
vislumbro do aquário as douradas linhas costurando as velas
de um navio sem farol que brota em minhas costas

As mãos dormentes descansam nos galhos
que desparecem com o orvalho da noite passada
o rosto queimado de um homem parado à sombra da lua
cujos olhos escorrem no horizonte sem eira, ajoelhado
testemunho a estrela que nasce de um colo

Inalo o pecado que desvanece sem censura
agarrando os ponteiros de mercúrio
hasteando no vale a bandeira
Percorro sôfrego o mapa de cetim
em nuvem repouso a âncora secreta
evapora em insetos tintos e alados
o papel úmido desse poema engasgado.