24.3.16

Vanguarda

Onde vais, majestade? Tua casa, teu reino, teu povo. O carvão, o aço, as aljavas.
Clamam, lamentam e acordam. Venha ver, as flores, o moinho, as cabras.

Onde vais, homem? Tuas armas, vosso deus, teu nome. O fogo, as lágrimas, o sino.
Avançam, uivam e tingem. Veja, a tempestade, a flâmula, os olhos.

Onde vais, covarde? Teu legado, tua filha, teu cálice. O sangue, a mitra, os corvos.
Gargalham, obliteram e cantam. Olhe. A ruína. Os vermes. O fim.

Volte aqui, intocável. Nada lhe restou.Não há lembrança do seu rosto.

A morte te ignora. Os lobos cospem em teus ossos. As estrelas apagam, beijando teu rosto.

E tu permaneces. Condenado. Amaldiçoado.

Querias mais um dia, pois fiques com todos.

25.1.16

O voo

Os primogênitos enxergam as rugas,
sentem o frescor do jasmim,
o timbre do coro, o sabor da fumaça.

Os que estão na segunda fileira percebem
a composição dos atores,
a harmonia do cenário,
o enredo.

Por último estão sentados
os que observam a plateia e a encenação.
Quem são?

Neste espetáculo, a morte fecha as portas.
O que há fora do salão?


Deslumbrado com os borrões de cores, a cacofonia das cordas e sopros,
Um tateia com a língua o osso que rompe sua carne.

Presa em águas que já correram, o vestido da bailarina
relembra o azul apagado de olhos que se foram.

O calafrio que percorre o dorso condensa na vidraça das janelas-gêmeas
Como o álgido toque da navalha que compartilha com seu amante.

Frustrada com o oblívio, enfraquecida com a extinção do seu culto,
pondera sobre o foi, o que há de ser e o para-além-disso (inexprimível, como sabemos).

Contorcendo-se e mal cabendo em si, a Inveja implode
alheia ao que é.


Este salão,
de buscas e arco-íris
cemitério de vaga-lumes e deuses,
de grãos de areias e estrelas,
osso e ferro,
angústias e marés,
desperta nas portas
e finda nas cortinas.

Apagam-se as luzes.

Iremos?

 Ficamos?








22.12.15

A Carruagem


Alegria não é mera ausência de tristeza
Tristeza não é carência de felicidade
Completam-se, não disputam.

Irmãs siamesas, ímpares e pares
E para ancorar na foz desse rio
Aos brados, o Capitão Rosa:

- Coragem!


O Hierofante


Entre a fumaça e o espelho
Flertou com ilusões tardias
de um sorriso que nunca veio.

Tu moras em uma ilha
de areia branca e água fria
Que pena!

Isolado, virgem receptáculo
Não conheceste a quentura
da andorinha ou o verde
e a colméia.

Era inverno no inferno.
E não havia saída.

A Torre



Por um segundo me enganei
Cárcere do íntimo, cativo de mim
Ébrio na quimera do mundo
Esfinge e feiticeira realidade,
Você me amaldiçoou.

A peleja na teia conforma.

Emaranhado, enganado pelos sentidos
Decompus a existência dentro de mim,
[a partir de mim]
toda substância dissolvida na minha experiência.

O que sou? Tudo, nada?
O que há?

Ser é explodir para dentro do mundo. Para fora de si.
Só há sentido na simbiose.
Sou quando tu és.
Destrona-se, assim, o reinado do eu.




12.1.15

Uma rima


Da minha gaiola
eu ouço os pássaros
mas não vejo o céu.

Da minha rua
eu sinto o sol
mas não beijo o véu.

Embriagado de mim
traço os caminhos que não segui
envolvido nessa balada sem fim
a caixa vazia não preenchi.


26.9.14

Destino


O povo humano persevera pelo amor e pela razão em sua história escrita em sangue.
A viagem é curta, as intempéries infindáveis.
Remo lúcido sorvendo a serenidade dos portos seguros.
Eis o milagre.

29.3.14

Como um soldado, como um valente


Um cachimbo abandonado
 era nosso único elo.
Uma ponte tão frágil
 de pilares tão firmes.
A balada sopra,
E me toca
Um jazz antigo
cheio de saudade.

Papai morreu domingo, com um sorriso.
 Largo feito janela de ferro-frio.
Não havia lembranças na cadeira sem balanço
Somente uma carta vazia,
 Ressequida de amor e molhada de mar
 O olhar dançava como pêndulo
Ávido mas
Marejado.
Papai morreu dormindo, embaixo do baru
 No dia em que eu nasci.

Impetrei recordações
Namorei a solidão,
 Sussurros e súplicas que o vento arrastou.
 Uma leve tempestade
 No peito de quem não aprendeu o ofício de pescador.
 Todo órfão nasce meio poeta
 E todo poeta nasce meio órfão
às vezes de alegria, às vezes de tristeza.
 E o batimento
Do coração e dos ponteiros me desloca, me expurga.
 Onírico, vislumbro pelo caleidoscópio da vida (não vivida)
o conforto que desvanece com sol
e desabrocha com a lua.
Só o amor cega a lâmina da ausência.

A Deus, Papai. 

15.3.14

Cavaleiro do vento


Quixotesco, cavalgava

condenado em tribunal efêmero

(a vida é só um detalhe)

Maldiziam, zombavam

Mas ele sabia que era o (único) porta-estandarte de seus sonhos.

Apertava as esporas,

 flutuava guiado pelo vento

que beijava seu rosto

e acariciava o moinho.



Era um louco? Era um arauto?

Sua escudeira não sabia.